Reajuste extra para servidor custou à União R$ 32 bi em seis anos

O governo federal teria
economizado R$ 32 bilhões com a folha de pagamento, nos últimos seis anos, se
os reajustes dados aos funcionários públicos tivessem acompanhando os da
iniciativa privada desde 2013.
O cálculo foi incluído em estudo da Instituição
Fiscal Independente (IFI) do Senado que traz uma ampla radiografia da evolução
dos gastos com pessoal. O trabalho, que será lançado nesta semana pelo órgão de
acompanhamento das contas públicas, foi feito para subsidiar os parlamentares
na discussão da reforma administrativa em 2020.
A IFI alerta que o fato de já ter ocorrido uma
reforma focada na redução das despesas de pessoal (aposentadorias e pensões dos
servidores) não diminui a necessidade de se discutir uma reforma
administrativa, que vá além do problema orçamentário e ataque também os
problemas de produtividade e qualidade dos serviços públicos.
Pelos dados da IFI, o ano de maior diferença dos
reajustes entre os trabalhadores do setor privado e os funcionários públicos
foi em 2017. Naquele ano, os vencimentos e as vantagens fixas pagas aos
servidores tiveram uma alta real de 7%, enquanto a variação da massa salarial
dos rendimentos no setor privado foi de 1%. Se tivessem sido equivalentes, a
despesa teria sido R$ 12 bilhões menor, aponta a IFI.
Entre 2013 e 2018, a massa salarial dos
empregados no setor privado formal caiu 0,7% em termos reais, enquanto os
vencimentos e vantagens fixas dos agentes públicos, que incluem, além dos
servidores, os trabalhadores temporários, estagiários e médicos residentes,
cresceram 12%.
Banho-maria
A reforma administrativa, lançada como uma das
prioridades da agenda da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, foi
colocada em banho-maria pelo presidente Jair Bolsonaro por conta da pressão dos
servidores.
“Este é um exercício para chamar a atenção
para essa diferença e mostrar que é preciso estudar isso a fundo”, diz
Alessandro Casalecchi, autor do trabalho. “Resolvemos colocar em números
para ficar mais concreto.”
Os dados da IFI mostram que, entre 2008 e 2018,
as despesas de pessoal (incluindo militares) cresceram R$ 64 bilhões, saltando
de R$ 248 bilhões para R$ 312 bilhões. No período, o crescimento dos gastos foi
maior para os servidores militares (29%) do que os civis (25%). O aumento dos
gastos de pessoal dos servidores civis se deu principalmente em duas épocas:
2008 a 2010 e 2016 a 2017.
Os números apontam que, nos últimos 20 anos, a
força de trabalho no serviço público (ativos) aumentou em 106 mil pessoas,
saltando de 509 mil (1999) para 615 mil (2019). O maior crescimento (de 63%)
foi de funcionários não estatutários, ou seja, celetistas, médicos residentes e
trabalhadores temporários Eles saltaram de 19 mil em 1999 para 87 mil em 2019.
A parcela de servidores com estabilidade caiu de 96% para 88% nas últimas
décadas.
A evolução das contratações seguiu os ciclos
eleitorais. Houve aceleração das contratações em anos de eleições, destaca o
documento.
O analista da IFI diz que houve uma preocupação
do estudo também de esclarecer conceitos para qualificar o debate público sobre
a reforma, entre eles o da estabilidade e do que integra as chamadas despesas
de pessoal.
Para o diretor executivo da IFI, Felipe Salto,
como a reforma da Previdência só terá efeitos maiores no médio prazo, é preciso
avançar com as reformas estruturais que ajudem a conter a despesa obrigatória:
“Quadro fiscal ainda é problemático. O peso das receitas atípicas, como a
do petróleo, foi elevado em 2019. O ajuste, até agora, concentrou-se em
investimentos.”
Na avaliação de Salto, a PEC emergencial – que
permite, entre outros pontos, o corte de 25% no salário e jornada dos
servidores – é insuficiente para resolver a questão. Ele recomenda que o
governo abra a caixa de ferramentas e comece a mexer nas engrenagens para
realizar um ajuste mais duradouro, que dependa menos de receitas
extraordinários, como a devolução dos pagamentos de empréstimos pelo BNDES à
União.
Estudo mostra disparidades de ganho entre
ministérios
Considerados prioritários em diferentes governos
e com garantia constitucional de aplicação mínima de recursos, os ministérios
da Saúde e da Educação receberam tratamentos diferentes na política de pessoal
da União nos últimos dez anos. Enquanto o gasto com a folha na Educação avançou
na esteira de aumentos salariais e contratações, a Saúde viu seu quadro de pessoal
encolher e a média da remuneração estagnar no saldo de uma década.
Dados levantados pela Instituição Fiscal
Independente (IFI) do Senado mostram que o Ministério da Educação foi
responsável por 79,4% do crescimento dos gastos com pessoal ativo na União nos
últimos dez anos. A despesa da pasta com folha de pagamento saltou de R$ 21
bilhões em 2008 para R$ 48 bilhões em 2018, na esteira da expansão das
universidades públicas e dos institutos federais. No mesmo período, o gasto com
remunerações na Saúde caiu de R$ 10,1 bilhões para R$ 9,9 bilhões. Os dados
estão atualizados pela inflação.
Além de refletir a disparidade de tratamento
entre os dois ministérios, o cenário revelado pelo estudo da IFI serve de
alerta no debate da reforma administrativa que o governo pretende apresentar ao
Congresso Nacional. A intenção da área econômica é reduzir os salários iniciais
e aumentar os “degraus” na carreira para se chegar à remuneração mais
elevada. Para a instituição, é preciso ser cauteloso para não incorrer em “generalizações
e simplificações” ao discutir a reformulação das carreiras.
“O MEC é o que mais gasta e que mais tem
gente”, diz Alessandro Casalecchi, analista da IFI. Ele ressalta que é
preciso considerar que a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH),
apesar de vinculada ao MEC, presta serviços para o Sistema Único de Saúde
(SUS). “Em sentido contrário a Fundação Nacional de Saúde teve suas
despesas de pessoal significativamente reduzidas”, diz.
De acordo com o estudo, os funcionários do Ministério
da Educação tinham remuneração média de R$ 7 mil em 2008 (valor já atualizado
pela inflação). Essa cifra chegou a R$ 9,7 mil no ano passado.
Enquanto isso, no Ministério da Saúde os
vencimentos e vantagens fixas eram de R$ 5,6 mil há dez anos em média, chegaram
a R$ 7,5 mil em valores de hoje, mas sofreram desvalorização até chegar a R$
5,9 mil em 2018.
O aumento real de 38,2% na média dos vencimentos
e vantagens fixas no MEC não foi o único fator de pressão sobre as despesas com
pessoal. Em 20 anos, o ministério dobrou o número de funcionários: eram 156 mil
em 1999 e passaram a 300 mil neste ano. As contratações foram focadas no ensino
federal, e a maior parte delas foi de servidores estatutários, que têm
estabilidade e não podem ser demitidos a qualquer momento.
Já no Ministério da Saúde, a remuneração média
subiu 6,9% em uma década. Em 20 anos, a pasta perdeu 12 mil funcionários. Mesmo
assim, é o segundo maior empregador da Esplanada, com 102 mil agentes públicos
– 62% deles com estabilidade e os demais com outros tipos de vínculo (o que
inclui médicos residentes e os integrantes do programa Mais Médicos).
Na área de segurança, o Ministério da Justiça e
Segurança Pública tem hoje 29 mil agentes públicos, 50% a mais do que em 1999.
Nos últimos dez anos, o gasto com pessoal na pasta cresceu 9% acima da
inflação, de R$ 6,3 bilhões para R$ 6,9 bilhões.
Estatais
As empresas estatais federais triplicaram suas
despesas com funcionários ativos entre 2008 e 2018, passando de R$ 5,2 bilhões
para R$ 13,7 bilhões, segundo os dados da IFI. O estudo inclui as estatais que
dependem de recursos do Tesouro para pagar suas despesas de custeio e folha,
como a Embrapa, a Conab e a Valec.
Hoje, 18 empresas são formalmente dependentes do
Tesouro e, por isso, estão sujeitas ao teto remuneratório federal, de R$ 39,2
mil. No ano que vem, a Telebrás também passará a ser uma estatal dependente do
Tesouro Federal – o que significa que terá de contar com recursos do orçamento
para pagar sua folha e despesas de custeio.
Os dados da IFI mostram que, quando há
participação do capital privado, o aumento de gastos com pessoal é mais
comedido. A despesa com folha das sociedades de economia mista cresceu 75% em
dez anos, passando de R$ 1,6 bilhão em 2008 para R$ 2,8 bilhões no ano passado.
No caso das empresas públicas, em que a União é
a única acionista, a fatura triplicou. Passou de R$ 3,5 bilhões para R$ 10,9
bilhões no mesmo período.



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