Quarta-feira de Cinzas foi de forte correção nos ativos domésticos

Como esperado, a Quarta-feira
de Cinzas (26) foi de forte correção nos ativos domésticos ao estresse visto
nos mercados internacionais nos últimos dias, com aumento da inclinação da
curva a termo. A rápida disseminação do coronavírus, agora pela Europa, e o
primeiro caso da doença confirmado no Brasil acentuaram o ajuste nos preços,
com o aumento da busca pela segurança, pressionando o rendimento dos
Treasuries, penalizando moedas emergentes e pressionando para cima os juros de
longo prazo. Porém, diante da percepção de que os impactos sobre a atividade
devem resultar num movimento de injeção de liquidez global por parte dos bancos
centrais, o comportamento das taxas futuras foi considerado até limitado em relação
ao que se viu nas ações e no câmbio. As taxas curtas oscilaram ao redor da
estabilidade durante toda a sessão e os longos subiram em torno de 15
pontos-base.
Internamente, na sequência dos rumores de saída
do ministro Paulo Guedes na semana passada, novos ruídos políticos trouxeram
desconforto e só não fizeram mais preço em função da gravidade da situação
relacionada ao coronavírus. O presidente Jair Bolsonaro compartilhou durante o
carnaval vídeo pelo WhatsApp, de convocação à população para os protestos de
teor anti-Congresso Nacional, agendados para 15 de março.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro
(DI) para janeiro de 2021 fechou em 4,195% (regular) e 4,200% (estendida), de
4,185% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2022 encerrou a
4,76% (regular) e 4,77% (estendida), de 4,681% no ajuste anterior. O DI para
janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,19% (regular) e 6,20% (estendida), de
6,062% no último ajuste, e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 6,471% para
6,63% (regular) e 6,65% (estendida).
Nesta sessão mais curta, as taxas já abriram
pressionadas pela correção ao exterior, na medida também que o dólar avançava,
mesmo com as intervenções extraordinárias anunciadas pelo Banco Central no
câmbio. Enquanto isso, o dia era de recuperação em Wall Street, com alta nas
Bolsas e Treasuries operando de forma mista. No meio da tarde, porém, o
nervosismo voltou a prevalecer lá fora, levando os vencimentos de médio e longo
prazos da curva local, mais expostos à piora da percepção de risco externo, a
renovarem máximas, na medida em que os Treasuries sucumbiam, com os rendimentos
acelerando a queda em função da busca pela segurança, que também penalizou
moedas emergentes.
Os efeitos da epidemia são preocupantes não pela
letalidade do vírus, considerada baixa, mas pelo potencial de estragos na
economia, ao afetar oferta e demanda por produtos e serviços. Com isso, cresce
a expectativa por mais injeção de liquidez até por parte do Federal Reserve, na
medida em que a curva dos Treasuries segue invertida, indicando recessão à
frente. “Mesmo que o nervosismo com o vírus diminua, o mercado de títulos
obrigará o Fed a reduzir as taxas”, afirma Edward Moya, analista de
mercado da Oanda em Nova York. Hoje, segundo a Bloomberg, foi confirmado mais
um caso em território americano, chegando a um total de 15.
Diante da disseminação da epidemia, no Brasil,
um integrante da equipe econômica reconheceu que o cenário “piorou
bastante” e o governo está considerando refazer a sua projeção de crescimento
para 2020, de 2,4% do PIB.
Nesse contexto, o Banco Central pode se ver
obrigado a rever sua sinalização de interrupção no ciclo de afrouxamento da
Selic. “Nos DIs curtos, o impacto do estresse no exterior foi reduzido
porque, do ponto de vista macro, com a economia desaquecendo, o viés é
deflacionário, e pode levar o Copom a voltar atrás no que tinha indicado e dar
mais estímulo monetário”, avaliou o estrategista de Mercados da Harrison
Investimentos, Renan Sujii
Com o coronavírus sendo a preocupação mais
urgente, a repercussão do vídeo compartilhado por Bolsonaro nos preços dos
ativos foi moderada, mas segue no radar dado o potencial de gerar crise entre
os Poderes. “As questões locais têm sido relegadas a segundo plano, mas
podem ganhar tração especialmente quando o Congresso voltar a discutir as
reformas na semana que vem. Por enquanto, como a reação é só retórica, não está
nos preços efetivamente”, afirmou o economista-chefe da Guide
Investimentos, João Mauricio Rosal.
Na pesquisa Focus divulgada excepcionalmente
hoje, as medianas para IPCA, PIB e Selic tiveram pouca ou nenhuma mudança. A
expectativa para a inflação este ano caiu de 3,22% para 3,20% e a do PIB, de
2,23% para 2,20%. A projeção de Selic manteve-se em 4,25%.



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