Educação tem sobra de caixa nas cidades

A
educação pública, que sempre sofreu com a falta de dinheiro, agora
preocupa prefeitos em todo o País, que não conseguem gastar os
recursos carimbados para o setor. Com o fechamento das escolas
durante a pandemia de covid-19 e a falta de uma previsão clara para
o retorno das aulas, muitas prefeituras já admitem que não vão
conseguir gastar o mínimo constitucional em Educação em 2020. Por
isso, os prefeitos querem convencer o governo e o Congresso Nacional
a flexibilizarem o piso da Educação agora, antes que o debate
político caia nas eleições municipais – adiadas para novembro.
A
Constituição obriga os municípios a desembolsarem pelo menos 25%
de suas receitas – seja por arrecadação própria ou por
transferências da União – na Educação. Por isso, para autorizar
prefeituras a não atingirem o mínimo do gasto na área é preciso
votar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que exige a
aprovação em dois turnos nos plenários da Câmara dos Deputados e
do Senado Federal, com pelo menos três quintos dos votos dos
parlamentares.
Sabendo da dificuldade política em se
aprovar qualquer salvo conduto para aplicar menos dinheiro em uma das
áreas mais valorizadas pela população, tanto a Confederação
Nacional dos Municípios (CNM) quando a Federação Nacional dos
Prefeitos (FNP) já procuraram o governo federal e os líderes no
Congresso Nacional para mostrarem a necessidade da medida.
A
CNM prepara um levantamento com o número de prefeituras em
dificuldades. Já o prefeito de Campinas (SP) e presidente da FNP,
Jonas Donizette, garante que praticamente todos os municípios estão
com execução abaixo do mínimo na Educação. Segundo ele, a média
de gasto na área em 2020 está entre 22% e 25%.
“Em
Campinas estamos com um porcentual de 24%. Ou seja, não é muita
diferença para o mínimo constitucional, e o tribunal de contas pode
até relevar considerando o contexto atual. Mas o julgador das contas
do município lá na frente, daqui a dois ou três anos, pode não
ter a boa vontade de avaliar assim. Além disso, essa diferença de
1% em um orçamento de R$ 6 bilhões (de Campinas) é um dinheiro que
faz falta na Saúde”, afirma o prefeito de
Campinas.
Unificação
A
alternativa defendida pelos prefeitos é antecipar a unificação dos
pisos constitucionais de Educação (25%) e Saúde (15%, no caso das
prefeituras). Esse já é um dos pontos da PEC do novo pacto
federativo, que foi enviada pelo governo ao Congresso Nacional em
novembro do ano passado, mas que não tem previsão para ser votada.
Com a unificação, os municípios passariam a ter que gastar 40% de
suas receitas nas duas áreas, possibilitando que recursos que deixem
de ser usados nas escolas possam reforçar o atendimento dos
hospitais.
“O mínimo para Saúde é de 15% das
receitas, mas hoje quase todos os municípios estão investindo de
25% a 30% dos seus recursos na área. A Saúde está sendo muito mais
demandada. É possível cumprir os pisos com folga se os porcentuais
forem unificados”, avalia Donizette. “O que defendemos é o
envio de uma PEC em separado apenas com esse ponto do novo pacto,
para ser votada no âmbito das medidas da pandemia, com validade pelo
menos para este ano”, completa.
Os presidentes da
Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado Federal,
Davi Alcolumbre (DEM-AP), já foram procurados pelos prefeitos para
tratar do tema. Segundo o Estadão / Broadcast apurou, a proposta
enfrentaria uma resistência maior entre os senadores. A equipe
econômica também prefere discutir a PEC do novo pacto de maneira
integral, embora não haja uma data para isso.
Para o
diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do
Senado, Felipe Salto, a possibilidade de flexibilizar o cumprimento
de uma regra de gastos só deveria ser debatida caso fique constatado
que o problema atinge a vasta maioria das prefeituras.
“Não
seria adequado fazer uma mudança na Constituição para resolver
situações particulares. É preciso justificar a proposta pela
quantidade de municípios afetados”, avalia. “Revisar o
mínimo para Saúde e Educação é uma discussão antiga, de antes
da pandemia e o pacto federativo vai endereçar esse problema para o
futuro. Agora, também não há garantia de que ele será votado
neste ano”, completou o diretor executivo do IIF.
Problemas
estruturais
As
dificuldades de prefeituras em cumprir o mínimo constitucional em
Educação revelam problemas estruturais que são anteriores à
própria pandemia, na avaliação do diretor de estratégia política
da organização não governamental Todos pela Educação, João
Marcelo Borges. Para o especialista, isso também seria um indicativo
de que as medidas recomendadas no atendimento aos alunos durante essa
fase também não estariam sendo seguidas.
“Quem não
gastar o mínimo de 25% com Educação em 2020 provavelmente é um
município que não estruturou serviços de educação remota. A
merenda distribuída nas casas é mais cara do que na escola, os
serviços de ensino remotos têm outro custo, e ainda há o custo
para as adaptações nas escolas para protocolos sanitários no
retorno às aulas. Tudo isso em um contexto de queda na arrecadação,
que deveria tornar mais fácil o cumprimento do mínimo”,
avalia.
Borges lembra que uma média de 80% dos gastos das
prefeituras com educação é para o pagamento dos salários dos
professores. “A folha de salários pesa mais em municípios
menores. Se estão gastando menos que no ano passado, pode ser outro
problema estrutural que é a contratação de professores
temporários. E se dispensaram esses temporários na pandemia, é
mais um indicativo de deficiência na educação remota.”
Para
o diretor da Todos pela Educação, é provável que a contabilidade
dos gastos na área neste ano precise mesmo ser debatida entre
municípios e tribunais de contas, já que a prorrogação do
calendário escolar com reposições de aulas avançando sobre 2021
pode causar dúvidas sobre, por exemplo, a inscrição de restos a
pagar para o próximo exercício.
Ainda assim, Borges
também defende uma revisão da regra do mínimo constitucional, mas
não como uma solução para o cumprimento meramente de uma norma
contábil. “A discussão sobre mínimo constitucional no Brasil
é de um reducionismo tacanho. Se quiser fazer uma discussão séria
sobre isso, é preciso pensar em gradações. Em vez de pensar em
vincular ao mínimo, pensar em índices de desenvolvimento
educacional. Quando melhor o desempenho dos alunos, maior a liberdade
do orçamento.”



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