‘Crimes não são cometidos no céu’
A frase que dá título a este Editorial é do juiz Sérgio Moro. Ontem, ele publicou uma sentença em que condenou o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o doleiro Alberto Youssef e mais seis, por crimes oriundos de desvios de recursos públicos da Refinaria Abreu e Lima (RNEST). O juiz, que conduz as ações penais da Operação Lava Jato, defendeu a delação premiada.
“Sem o recurso à colaboração premiada, vários crimes complexos permaneceriam sem elucidação e prova possível. Em outras palavras, crimes não são cometidos no céu e, em muitos casos, as únicas pessoas que podem servir como testemunhas são igualmente criminosos”, afirmou Moro na sentença.
A afirmação do juiz é de uma obviedade tão gritante, que o fato de ele se ver obrigado a emiti-la para defender o procedimento, indica duas possibilidades que evidenciam algo sobre os críticos da delação premiada: ou o sujeito que a ataca é muito idiota, estúpido mesmo (no sentido filosófico do termo, ou seja, uma pessoa com a inteligência fechada para a realidade, encerrada em certos critérios de avaliação e imagens que o tornam cegos para o que acontece à sua volta); ou então o sujeito tem muito, mas muito, mas muito interesse em que se mantenham escondidas certas realidades, e por isso ele apenas se faz de idiota, de cego, de bisonho.
Ora, para ser testemunha de um fato, uma pessoa não precisa ser moralmente ilibada, incorrupta, um santo. Basta que ela tenha, de algum modo, participado dos fatos (ainda que como espectador), deles tenha lembrança e formas de expressar e comprovar minimamente que o que ele diz é verdade; ou então indica para uma hipótese que se mostra potencialmente real e, portanto, pede um mergulho maior na investigação.
“Argumentar, por exemplo, que o colaborador é um criminoso profissional ou que descumpriu acordo anterior é um questionamento da credibilidade do depoimento do colaborador, não tendo qualquer relação com a validade do acordo ou da prova”, afirmou também o juiz. Mais uma afirmação óbvia, aliás, direcionada a saltar e destruir os argumentos de dois dos principais obstáculos para o desenvolvimento da inteligência nacional, e que tornam áridos e pouco férteis os debates brasileiros: o idiota palpiteiro, e o canalha embusteiro; figuras que prosperam em muitas instâncias da vida pública do Brasil.



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