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Trabalho explora universo genético relacionado ao desempenho humano

16/08/2012 15h35 - Atualizado há 14 anos Publicado por: Redação
Trabalho explora universo genético relacionado ao desempenho humano

Como a Ciência pode ajudar no preparamento físico de atletas? Trabalho de um doutorando da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) acaba de ser premiado por buscar respostas para essa questão ao explorar o universo genético relacionado ao desempenho humano. De autoria de Thiago José Dionísio, estudante do Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas da UFSCar, oferecido em parceria com a Unesp, o trabalho foi reconhecido como o melhor paper da categoria “doping genético e atletas” durante o 1º Simpósio Brasileiro de Genômica e Esporte.

 

Intitulado “ACTN-3 polymorphism is associated with performance in brazilian juvenile soccer players”, o trabalho de Dionísio teve como objetivo identificar como a genética pode contribuir para um melhor desempenho físico e tentar estabelecer estratégias diferenciadas e individuais de treinamento para cada atleta com características genéticas distintas. Em sua investigação, Dionísio trabalhou com polimorfismo genético, um conceito da área que define como alterações na sequência do DNA modificam a função ou expressão de uma proteína. Isso ocorre, segundo os pesquisadores, em aproximadamente um por cento da população.

Segundo a orientadora do trabalho, Sandra Lia do Amaral, professora do Departamento de Educação Física da Faculdade de Ciências da Unesp, os estudos envolvendo polimorfismos ganharam destaque nas Ciências relacionadas ao Esporte a partir de pesquisas que relacionam polimorfismos de genes específicos com o desempenho esportivo de atletas. Ela ainda ressalta que a preparação física desses indivíduos, de modo geral, já esgotou quase todas as estratégias existentes na busca da excelência e que cada ferramenta nova nesse âmbito pode, por exemplo, tornar um atleta ou uma equipe campeã. Nesse sentido, a tecnologia pode permitir avançar em territórios antes intocáveis, como a exploração das informações genéticas. “Thiago pensou em um trabalho que contemplasse essa lacuna ainda existente nesse universo genético relacionado ao desempenho humano, no intuito de munir os preparadores físicos visando sempre à criação de estratégias extras e eficazes na preparação física dos jogadores de futebol”, explica a docente.

Um exemplo dessa relação entre genética e desempenho físico está relacionado a uma proteína chamada alfa actinina 3 (ACTN3). O polimorfismo do gene que codifica a produção dessa proteína tem sido bastante explorado em estudos que têm demonstrado que indivíduos que expressam o gene ACTN3 possam apresentar vantagem em modalidades que exigem explosão e força muscular quando comparados com indivíduos com genótipo mutado, que não expressa esta proteína.

Ao investigar a ocorrência do gene ACTN3 em um grupo de 100 atletas da categoria de Base do São Paulo Futebol Clube, Dionísio identificou diferença de performance em dois grupos de jogadores, sendo que um deles tinha melhores resultados nos testes de força e explosão e outro apresentava melhores resultados e testes de resistência. Nesse procedimento, o pesquisador realizou testes de força e resistência, comumente realizados no futebol, tais como testes de saltos (“squat jump”, “counter movement jump” e “counter movement jump with arms help”), corrida (1, 10, 20 e 30m) e um teste de resistência (“Yoyo test”).

A maior dificuldade da pesquisa, segundo Dionísio, foi encontrar um bom número de atletas inserido em um programa de treinamento sistematizado em algum clube de futebol. Por intermédio do professor Carlos Rogério Thiengo, ex-aluno do curso de Educação Física da Unesp de Bauru, foi conseguida autorização para coletar amostras e realizar testes físicos nos jogadores de futebol das categorias do São Paulo Futebol Clube. “Vale destacar que os atletas selecionados para a pesquisa deveriam residir e treinar no clube por pelo menos um ano, fato este que eliminaria algumas variáveis confusionais no estudo”, esclarece o pesquisador.

Segundo a orientadora, o trabalho de Dionísio teve o diferencial, principalmente, porque são poucos os que evidenciam as correlações existentes entre os diversos polimorfismos gênicos e o desempenho de atletas de um modo geral. “O que se tem, na maioria das vezes, são correlações entre as frequências dos diferentes genótipos de determinados genes, com algumas modalidades esportivas”, comenta Sandra Amaral. Ela ressalta que o trabalho teve o cuidado em escolher uma amostra bem homogênea com um tratamento e cuidados que renderam o prêmio do Simpósio. “Foi de extrema importância para nosso grupo que ainda está engatinhando nesta área tão pouco estudada, mas com grande relevância internacional”, esclarece.

O pesquisador, por sua vez, lembra que a pesquisa, assim como todas as outras na área da genômica esportiva, estão no início de suas explorações, de forma que o que se tem até o momento são fortes indícios de que os polimorfismos genéticos influenciam no desempenho humano. Segundo ele, porém, sabe-se que mais de 200 polimorfismos genéticos podem determinar benefícios ou malefícios aos atletas, o que torna difícil controlar informações, uma vez que aliado a todo este panorama ainda existe o fator ambiental, que influencia muito no desempenho humano.

Dionísio também lembra as questões éticas envolvidas na pesquisa. Segundo ele, há rumores sobre a possibilidade de selecionar atletas segundo seu perfil genético, o que é totalmente desaprovado pelo grupo de pesquisa de que participa. “O que pretendemos no futuro é contribuir com a literatura científica no sentido de munir os técnicos e preparadores físicos para uma melhor preparação física dos atletas de posse de suas características genéticas”, revela o pesquisador, que ressalta que o assunto é desconhecido e por isso causa espanto, desconfiança e resistência. “A ideia é firmar parcerias com outros grupos de pesquisas no Brasil para que possamos recrutar mais atletas para os estudos, investigar mais os polimorfismos genéticos, discutir sobre os resultados obtidos e, de maneira madura e consciente, disponibilizar estas informações para todos os responsáveis pela formação de atletas”, finalizou.

O Simpósio Brasileiro de Genômica e Esporte aconteceu de 27 a 29 de julho, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O artigo apresentado no evento é parte da tese de Thiago Dionísio, que tem como objetivo correlacionar vários polimorfismos genéticos com o desempenho de jogadores de futebol. No trabalho premiado foi apresentada somente a correlação de um polimorfismo (gene da alfa actinina 3, ACTN3) com o desempenho.

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