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Horário de verão e a percepção do tempo

27/10/2012 19h12 - Atualizado há 13 anos Publicado por: Redação
Horário de verão e a percepção do tempo

Para felicidade de alguns ou desprazer de outros, ele está de volta. No último domingo, 21 de outubro, depois de oito meses de seu último término, o horário de verão retornou, trazendo para alguns uma sensação boa, em razão dos dias mais longos, mas para outros o desconforto psicológico (pelas alterações da noção de claro e escuro) e/ou físico, (pela bagunça no relógio biológico), tudo isso somado à sensação de terem nos “arrancado” 60 minutos de nosso precioso tempo.

O horário de verão, projeto pensado em 1784 pelo norte-americano Benjamin Franklin, só chegou ao Brasil em 1931, quando teve vida curta (durou somente meio ano), voltando 18 anos depois e permanecendo no país até os dias de hoje.

Mas, por que nossa percepção de tempo é afetada com a mudança de uma hora no horário de verão e o que tudo isso tem a ver com o tempo físico?

De um lado, temos o tempo físico, que é a medida do intervalo entre dois acontecimentos que se sucedem, e seu sentido define a ordem cronológica das coisas. O valor maior ou menor desse intervalo dá a rapidez ou ritmo com que os acontecimentos ocorrem. O tempo, portanto, é algo concreto, mensurável, que existe fora do nosso cérebro, no mundo exterior. Do outro lado está a representação que nós criamos dessa realidade concreta no nosso cérebro, através dos nossos sentidos, e que muda de pessoa para pessoa e de geração para geração. O ritmo do tempo que vivemos hoje, certamente difere daquele vivido por nossos avós.

Nosso cérebro utiliza-se de artifícios ou ferramentas psicológicas que, desde o início, auxiliaram o homem na formação dessa “imagem do mundo” e tem garantido sua sobrevivência ao longo da existência. Uma dessas ferramentas, ou artimanhas contra as incertezas, é termos a noção do contrário como referência. Assim, podemos dizer que existe dia porque existe noite, que há vida porque conhecemos morte, que existe silêncio porque há ruído e assim por diante.

Mas, e o tempo físico? Como podemos ter uma noção correta – ou não – do tempo, se não existe o seu contrário ou oposto – o não-tempo? 

Se perguntarmos a uma criança o que é o tempo, ela certamente responderá, rindo: não saberei eu o que é o tempo!? Já aquele que compreende a ciência sabe que o tempo, assim como o conceito de massa, de distância e de energia, não são realidades, mas “conceitos fundamentais da física”. O tempo é um dos instrumentos do pensamento que nos auxilia na compreensão do nosso universo. Como a física é uma ciência exata e pretende descrever a natureza de forma correta, ela criou ferramentas ou instrumentos que nos auxiliam a ter uma noção, pelo menos aproximada, da realidade.

No caso do tempo, este instrumento é o relógio. O relógio é como uma chave de porta: não tem nada a ver com ela, mas é uma ferramenta necessária para abri-la. Da mesma forma, os relógios são instrumentos de utilidade prática inigualável, artificialmente construídos e, ao mesmo tempo, nos auxiliam na compreensão da natureza. Com o relógio, não precisamos criar uma referência contrária do tempo. A física foi capaz de criar artifícios ou ferramentas do pensamento para eliminar as impressões subjetivas da realidade, criando noções exatas no cérebro do homem. E um dos fatos responsáveis por isso foram a invenção do relógio e a  medição do tempo, explica o docente do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), Francisco Gontijo Guimarães.

 

Das pirâmides…

Por um bom tempo, os astros sempre foram utilizados como referência para se fazer a medida do tempo. Devido ao movimento exato e periódico no céu, eles foram os primeiros “relógios” utilizados pelo homem. Formalmente, tudo começou com os egípcios, por volta de 2.500 a.C., quando estes transformaram o céu num relógio e começaram a marcar o tempo mais sistematicamente, usando eventos astronômicos, como a posição do Sol e das constelações servindo de ponteiros. O nascer e pôr do Sol e o movimento das estrelas no céu noturno foram utilizados para marcar os acontecimentos diários, principalmente para fazer predições, o que garantiu a sobrevivências desses povos. Como padrão, foram utilizados intervalos de tempo exatos para aquela época, como duração do dia pela rotação da terra, do mês pelas fases da Lua e do ano pelas estações.

Por que 24 horas?

Foram os egípcios que surgiram os primeiros relógios solares e a ideia de dar nome aos bois, quer dizer, números ao tempo.  A variação da sombra de uma vara fincada no chão foi dividida em doze partes. Eles utilizavam na época, para contar, os três ossos que temos em cada dedo das mãos (por algum motivo, excluíam o polegar dessa contagem).  Com isso, o sistema duo decimal (base 12) foi usado para dividir o dia. Para dividir a noite, a referência foram 12 constelações que apareciam no céu durante a noite.

Depois da invenção do conceito de horas, veio a ideia de dividi-la em intervalos menores. Para isso, o número 60 foi o escolhido. Por ser divisível por 1, 2, 3, 4, 5 e 6, o número 60 parecia uma escolha conveniente. Foi quando surgiram os minutos. Depois, veio a “segunda” divisão, na qual a hora seria fracionada pela “segunda vez” por 60. Daí o nome “segundo” (originado da palavra em latim “secunda”). Essa divisão do tempo era fundamental para sobrevivência da civilização ao longo dos tempos, pois só através disso era possível prever certos eventos com maior precisão, exemplifica Francisco.

Para melhorar a medida do tempo, muitos outros se envolveram na empreitada: os árabes fizeram o “Quadrante solar”, os romanos, o “Relógio hidráulico”. Criaram-se ampulhetas, relógios pneumáticos, relógios mecânicos de pêndulo e os de bolso, sendo que cada inventor, de qualquer época, sempre buscou o mesmo: a máxima precisão da medida do tempo.

Apesar de todos os avanços, só nos tempos modernos os homens começaram a perceber que as medidas astronômicas do dia solar, utilizadas como referência para o tempo, continham flutuações. Novamente, chegou-se à necessidade de aperfeiçoar a medida do tempo. Os eventos astronômicos diários não eram tão uniformes quanto se pensava. A rotação da terra sofre flutuações responsáveis por certa imprecisão na duração do dia solar e, inclusive, pouco antes do início do século XX, cientistas descobriram que o a rotação da Terra sofria uma pequena desaceleração  devido a efeitos das marés. Nosso planeta, portanto, passou a ser visto como um relógio não muito preciso para a os padrões e exigências da civilização moderna, conta Francisco.

A entrada das ciências, nesse caso, passou a ser um fato importante, capaz de desenvolver metodologias eficazes para determinar os eventos com precisão, isto também no que diz respeito ao tempo. As leis da Mecânica Celeste de Newton  foram essenciais para o aprimoramento da medida do tempo. Elas são tão precisas que é possível, através o uso de equações, construir-se calendários ou almanaques com previsões astronômicas para os próximos 100 anos. Até mesmos os astrólogos se utilizam destes calendários para fazer as suas previsões, afirma o docente.

A ciência não é capaz de deter a definição absoluta de tempo: pode se ver que esse conceito, em física, é algo bem relativo, não só em um contexto cronológico. Afinal, as teorias científicas evoluem – como é parte integrante de uma estrutura maior atrelada ao espaço. “A teoria da relatividade, desenvolvida por Albert Einstein, em 1905, trouxe à tona o fato do tempo estar intimamente relacionado com o espaço. Nesse contexto, o tempo perdeu o status de grandeza absoluta e universal e passou a ser uma grandeza estritamente atrelada às propriedades do espaço”, explica Francisco.

 

… à tecnologia

Em 1945, o físico norte-americano Isidor Rabi, criou um relógio que hoje é considerado o mais preciso do mundo: o relógio atômico (saiba mais clicando aqui). Sua precisão é tão grande que ele atrasa ou adianta um segundo em 30 milhões de anos. O destaque do relógio (além de sua precisão, é claro) se dá pelo fato de que, pela primeira vez na história, a medição do tempo já não mais depende de fenômenos astronômicos- o que era comum, até então.

Chegando-se a uma precisão jamais vista através dos relógios atômicos, é importante uma ressalva: a ânsia do homem em medir o tempo com precisão sempre foi ligada à evolução de técnicas e tecnologias. Um dos motivos pelos quais os egípcios viram a necessidade de medir o tempo, foi para fazer colheitas mais produtivas. E, hoje, muitas coisas que utilizamos, como a internet, dependem de um tempo muito bem cronometrado para seu bom funcionamento. O mundo moderno exige a marcação cada vez mais precisa das horas. Por exemplo, o posicionamento exato das coisas em torno da Terra, que é dado pelos satélites, ou o funcionamento de um GPS, seriam impossíveis caso não tivéssemos medidas de tempo muito precisas, diz Francisco.

O prêmio Nobel de Física deste ano foi entregue a dois pesquisadores que propõe uma teoria que, entre outras coisas, poderá muito em breve trazer um relógio ainda mais pontual do que o atômico: o relógio quântico. Enquanto a margem de erro de um relógio atômico se dê pela medida de 1/1010s, o relógio construído com base nas teorias quânticas oferece uma margem de erro ainda menor: 1/1016s.

A ambição do homem em controlar o tempo, no entanto, não é novidade. Mas, se antes, as grandes manobras para tal controle só podiam ser encontradas nos filmes, hoje, com o (fundamental) auxílio da ciência e tecnologia estamos cada vez mais próximos da precisão absoluta. A cada avanço, um limite será encontrado, mas, sobre isso, Francisco dá uma opinião final: Sempre esbarraremos em limites, mas o homem, durante toda sua história, construiu artifícios para suplantá-los. E, pelo que já constatamos até o momento, no que diz respeito ao tempo, literalmente, o céu não é o limite para sua medida.

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