“Brasileiro virou caçador de promoções”, diz economista
Com alta nos preços, principalmente dos alimentos, consumidores têm que recorrer aos produtos em oferta para manter orçamento doméstico

Os fatores climáticos e econômicos que fizeram os preços dos alimentos saltarem para cima neste início de ano estão mantendo o consumidor brasileiro em “caçador de promoções”. A afirmação é do economista Paulo Cereda. Segundo ele, para não sair do orçamento doméstico a pessoa tem que buscar frutas, legumes, verduras, carnes e outros alimentos que estejam com preços mais baixos, produtos que representam o chamariz de supermercados para atrair a clientela.
As promoções, segundo Cereda, são usadas como uma espécie de “isca” para buscar o consumidor para a loja. “Os supermercados buscam criar atrativos de preços, pois negociam em escala. As promoções sempre são para os produtos da época, que estão na safra e que têm custos mais baratos. Isso é usado para compor um atrativo de preço. Eu anuncio um produto com memória de preço na cabeça do consumidor, barato, e atraio o consumidor que acaba levando outros produtos e compõe o meu ganho. Há muitos anos estamos no Brasil caçando promoções e ofertas, pesquisando para que nossa renda estique um pouco no final do mês. Porém, a questão de pesquisar deve levar em conta o tempo e os recursos utilizados para tanto. Se valer a penam ótimo. Caso contrário, a economia dos preços menores se perde nos custos da própria pesquisa”, explica Cereda.
JANEIRO
Em janeiro, a inflação ficou em 0,42%, puxada principalmente pela alta no preço dos alimentos. Em janeiro, o grupo alimentação e bebidas, que tem maior peso na cesta de consumo das famílias (21,12%), subiu 1,38%. Isso significa um peso de 0,29 ponto percentual (p.p.) no IPCA do mês. É a maior alta de alimentação e bebidas para o mês desde 2016, quando o grupo alcançou elevação de 2,28%.
O IBGE explica que fatores climáticos foram os principais motivos que causaram o aumento no preço dos alimentos no começo de 2024. “O aumento nos preços dos alimentos é relacionado, principalmente, à temperatura alta e às chuvas mais intensas em diversas regiões produtoras do país”, explica o gerente da pesquisa, André Almeida.
Entre os alimentos que mais pesaram no bolso do brasileiro em janeiro estão a cenoura (43,85%), batata-inglesa (29,45%), feijão-carioca (9,70%), arroz (6,39%) e frutas (5,07%).
“Historicamente, há uma alta dos alimentos nos meses de verão, em razão dos fatores climáticos, que afetam a produção, em especial, dos alimentos in natura, como os tubérculos, as raízes, as hortaliças e as frutas. Neste ano, isso foi intensificado pela presença do El Niño”, destaca Almeida.
O pesquisador contextualiza ainda que no caso do arroz, a Índia, maior produtor mundial, enfrentou questões climáticas que atingiram a produção e cortou as exportações no segundo semestre de 2023. O resultado é menos produto à venda e, consequentemente, maior o preço.
FEVEREIRO
Em fevereiro, a inflação oficial ficou em 0,83%, quase o dobro do mês anterior, janeiro (0,42%). Os reajustes de mensalidades escolares foram os que mais pressionaram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mas o grupo alimentação e bebidas subiu 0,95%, sendo o segundo que mais pressionou a inflação para cima, respondendo por 0,20 ponto percentual do IPCA de fevereiro.
Na alimentação dentro de casa, a alta foi de 1,12%, impulsionada pelos preços da cebola (7,37%), batata-inglesa (6,79%), frutas (3,74%), arroz (3,69%) e leite longa vida (3,49%).
Em fevereiro, o custo da cesta básica subiu em 14 das 17 capitais brasileiras analisadas pela Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, divulgada mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Os produtos que mais contribuíram para o aumento no preço da cesta foram o feijão, a banana, o arroz, a manteiga e o pão francês. O feijão, por exemplo, subiu em todas as capitais analisadas pelo Dieese. Já a banana subiu em 16 capitais, com elevações que oscilaram entre 2,62% [em Belém] e 19,83% [em Belo Horizonte] na comparação com janeiro.
Paulo Cereda disse que por conta do clima algumas situações foram mudadas e outras serão mantidas por questões de tradição religiosa ligada à culinária. “Alguns preços de janeiro já foram reduzidos. E estes preços de tubérculos, como batatas, cenoura, e folhas em geral, como alface, cebolinha e outras flutuaram muito por conta da chuva. Neste ano infelizmente as chuvas do Paraná em excesso dificultaram muito a colheita. Vira um barreiro danado e dificulta o trabalho, assim como também a cenoura”, explica.
Segundo ele, o clima está muito instável no mundo todo. “Então, você tem problemas de escassez e quebra de produção. Uma coisa que assustou muito as pessoas foi o salto no valor do azeite de oliva. Os problemas climáticos nos países que são os grandes produtores causaram esta alta no preço. Isso flutua à medida que chove mais ou menos e quando tem chuvas de granizo. Quando há tempestades e quebra de produção”.
As festas de Natal, Revéillon e Semana Santa também mexem com os preços dos produtos. “Um outro fator é o período em que se consome determinados produtos. Estamos no início do ano e ainda há, nos preços da batata, consequência das festas de fim de ano, ode ela, a abatata, é ingrediente da culinária produzida nesta época. E ela continuará sendo muito utilizada na Quaresma e até a Semana Santa. Outros produtos como o tomate e a cenoura são extremamente sensíveis às variações climáticas. Vamos torcer para o clima estabilizar ao longo do ano. Mas ainda vamos ter o La niña”, “completa.



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