Economista tem ressalvas sobre sucesso de novo carro popular
Para Paulo Cereda, seria interessante para consolidação do programa,pacote de incentivos ao desenvolvimento de fornecedores locais

O projeto do novo carro popular com uma série de medidas econômicas que deve ser lançado hoje, 25 de maio, Dia da Indústria, pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva e pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode ser bastante positivo para a economia brasileira, mas existem obstáculos e armadilhas a serem vencidos neste caminho. A análise é do economista Paulo Cereda.
Ele explica que três pontos serão atacados pelo governo, através do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços): redução da carga tributária, incentivo ao uso de componentes nacionais e programa de financiamento para veículos. A ideia do governo é envolver toda a cadeia automotiva e não só as montadoras
“Na raiz da causa da alta nos preços dos veículos está o desabastecimento da cadeia global de fornecedores, fruto da pandemia, lembrando que não sou contra o fique em casa, mas agora precisamos agir para reequilibrar a economia global”, ressalta ele.
Segundo Cereda, o desabastecimento provocou uma alta nos custos de produção e dos componentes, demanda maior que a possibilidade de oferta, o efeito é inevitável, alta nos preços finais aos consumidores.
Quanto ao valor atual do carro mais barato do Brasil, Cereda reflete sobre pontos fundamentais. “Concordo que quase 70 mil reais por um carro pelado é muito dinheiro, mas a maneira como produzimos e a forma como tributamos a cadeia produtiva são, somados, a causa raiz desses preços incoerentes. Preços não somente nos mais espartanos, mas também nos médio que custam a mesma coisa que um apartamento. Desta forma o sentido da proposta tem coerência, reduzir a carga tributária, porém fica a pergunta: Essa redução será em toda a cadeia produtiva ou somente em alguns elos? Essa reposta é fundamental para entendermos o quanto efetivamente veremos de redução no preço final”, destaca o economista.
Quanto ao estímulo que o Governo Federal pretende dar à substituição de componentes importados, através da nacionalização da sua produção, Cereda aponta obstáculos no caminho. “Também o incentivo a cadeia nacional de fornecedores está no sentido correto, mas não é tão simples. A cadeia produtiva de automóveis exige uma série de certificações de seus fornecedores além dos contratos que, normalmente tem cláusulas de multas pesadas, para atrasos na entrega do que foi comprado”, comenta.
Mas Cereda também vê possiblidades de soluções. “Seria bem interessante se o programa vier com um pacote de incentivos ao desenvolvimento de fornecedores locais. A boa notícia é que a indústria global está revendo a estratégia da globalização frente à segurança da produção local, após todas as incertezas da pandemia e das guerras”, reflete ele.
Quanto à resposta dos consumidores ao novo carro popular, o especialista vê algumas condições necessárias para o aquecimento deste mercado. “Precisamos acompanhar o endividamento das famílias, que já apresenta impacto na queda do consumo no varejo, para vermos se incentivo ao financiamento para compra de veículos vai ter o efeito desejado. Nesta linha a taxa de juros real é um fato inibidor do crédito ao consumo e também para investimentos. Na questão dos juros, precisamos ter muita sabedoria e gestão econômica para reduzir a agenda política. Uma redução brusca pode levar a fuga de investimento e isso impactar na alta do dólar. Se isso acontecer teremos novamente pressões de inflação de custos”, conclui.
REPERCUSSÃO
CIESP comemora medida e aposta em retomada
O diretor regional do CIESP São Carlos, o empresário Marcos Henrique dos Santos, está otimista com o lançamento do projeto do novo carro popular do Governo Federal, que deve ser lançado hoje, na sede da FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo) na capital paulista. Em viagem à China, Santos ressalta que as medidas serão anticíclicas. “É importante que o Governo Federal tome estas medidas para evitar que a economia fique estagnada”, afirma ele.
Segundo o líder empresarial existe uma série de fatores que atingem a fabricação dos veículso automotores. “A economista mundial está passando uma fase muito difícil. Veio a pandemia e causou uma escassez de componentes e de matéria prima, o que acabou elevando o preço de praticamente todos os produtos. Depois, quando a pandemia foi se abrandando veio a Guerra da Ucrânia que elevou o preço de alimentos e matérias primas e falta de energia na Europa. Isso atinge a indústria automobilística, primeiro com a falta de componentes e o aumento da inflação com a perda de poder aquisitivo que ela gera. E tem também algumas normas de segurança que se tornaram obrigatórias e que fizeram nosso carro popular chegar ao valor de R$ 80 mil”, explica.
Mais do que retomar o desenvolvimento, segundo Santos, o pacote do Governo Federal poderá evitar uma onda de demissões no parque fabril dos automóveis. “Estamos vendo a indústria automobilística e também outras áreas do parque industrial brasileiro com lay off e paralisações, férias coletivas e isso é ruim, pois são medidas que precedem o desemprego. Então, antes que o desemprego aconteça, as medidas de retomada do carro popular são importantes. Por outro lado, temos que saber dosar as medias de forma correta, pois muito subsídio também pode atrapalhar a economia. O Estado tem que ser enxuto, pois quem paga as contas somos nós”, reflete ele.
A Região Central, segundo Santos, tem forte relação com o setor automobilístico e poderá viver um aquecimento da economista se o pacote tiver sucesso. “A região tem a fábrica de motores da Volkswagen em São Carlos e a Honda em Itirapina, mas, muito mais do que isso, temos inúmeras fábricas metalúrgicas que fornecem peças e componentes e também serviços para esta cadeia produtiva. É um segmento que movimenta toda a economia. Espero que as medidas governamentais ajudem a movimentar a economia na nossa região”, aposta ele.



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