Falta de âncora fiscal e chuvas podem pressionar inflação
Boa notícia está na manutenção ou até queda nas tarifas de energia elétrica por conta de reservatórios abastecidos pelas chuvas de verão

A morosidade do governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva em definir uma âncora fiscal e o excesso de chuvas dos últimos meses estão entre os fatores que podem pressionar a inflação em 2023. Por outro lado, as chuvas podem, também, ter o efeito contrário, reduzindo o valor da energia elétrica por conta da boa oferta de água nos reservatórios. A análise é do economista Paulo Cereda.
Em entrevista exclusiva ao PRIMEIRA PÁGINA, ele traça o cenário atual e as perspectivas da inflação. “Pensando em termos de inflação para este ano, é complicado fazer previsões. A intenção manifestada, pelo menos é de mantê-la no centro da meta estipulada. Mas a gente tem algumas pressões que preocupam. A primeira preocupação se dá diante da falta de uma âncora fiscal que diz respeito de quanto e como serão gastos os recursos arrecadados pelo Governo Federal. Há uma tentativa ou uma esperança ou intenção de se gastar muito mais do que se arrecadou sem explicar com clareza de onde virão os recursos. Isso gera muita instabilidade e gera muita dúvida. A dúvida pode levar a decisões de proteção e aí você tem aumento em alguns indicadores de custos”, explica ele.
As chuvas deste Verão também preocupam o analista. “A gente tem a questão das chuvas caindo em grande abundância neste início de ano e isso atrapalha a produção agrícola, não só na plantação, na vida do produtor, mas também de outras formas. As chuvas têm que vir no regime ideal, nem menos e nem mais. Quando falta, seca, cai a produção, quando tem excesso compromete muito a qualidade do que é produzido. E se houver comprometimento da qualidade dos produtos e da capacidade produtiva, com certeza, isso promove um efeito de pressão nos preços para o consumidor final. Sem levar em consideração as dificuldades que existem no nosso país de estrutura para a distribuição dos produtos, com problemas de estradas rurais e até estradas não privatizadas, que reduzem muito a qualidade e comprometem o transporte dos produtos agrícolas”, explica Cereda.
O ponto positivo das chuvas reside na possível queda ou não aumento dos preços da energia elétrica, insumo fundamental tanto para o agronegócio quanto para o setor fabril. “Por outro lado, com a grande quantidade de chuvas, os reservatórios de água estão cheios. Assim, se tivermos bandeira vermelha nas tarifas de energia elétrica no meio do ano talvez não tenhamos por um tempo tão grande, com a necessidade de termos de recorrer ao uso das termoelétricas. Isso é uma boa notícia, à medida em que tivemos nos últimos anos uma grande pressão no custeio da energia, justamente porque os reservatórios tinham pouco volume de água. Com isso a energia elétrica ficava cara. A energia elétrica tem um impacto bem maior e não afeta somente a produção agropecuária, afeta também a produção industrial. Não havendo uma grande subida das tarifas, com oferta melhor”, comentou o especialista.
Outros fatores, como a Guerra da Ucrânia e a postura do Governo Lula nestes primeiros meses e novo Pacto Federativo que deve ser firmado com a reforma tributária e a criação do IVA (Imposto sobre Valor Adicionado), também podem interferir no processo inflacionário brasileiro. “Ainda existe uma grande indefinição até no cenário mundial. O que precisamos observar neste primeiro momento é o que se tem de juízo ou preocupação em ancorar os tributos e a âncora fiscal e como será feita a reforma tributária para que não tenhamos impacto em custos. Todo impacto em custos impacta no produto final”, conclui Cereda.



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