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IMIGRANTES PORTUGUESES

Todo vigor de espírito da raça lusitana tem sua confirmação nas realizações bem alicerçadas dos homens que construíram a nossa pátria

29/04/2022 01h48 - Atualizado há 4 anos Publicado por: Redação
IMIGRANTES PORTUGUESES

Marco Bala

No Período que vai de 1886 a 1930 São Carlos recebeu cerca de 30 mil imigrantes.

Oriundos da Itália, Portugal, Espanha, Polônia, Áustria, Alemanha, Síria, Líbano, Suíça, Japão … os “ braços pagos ” inscreveram e deixaram profundas digitais na história são-carlense.

NOTAS SOBRE A IMIGRAÇÃO PORTUGUESA

1)       Em São Carlos haviam 3.827 escravos em 1887, segundo registro do Relatório do Presidente da Província; e em 1890 um número equivalente de imigrantes evidenciava o trânsito on-line do “Cafezal da Senzala ao Cafezal da Colônia” ….

Neste grande fluxo de “braços pagos” para o Brasil, dos cerca de 6 milhões de imigrantes, cerca de 500.000 portugueses deitaram raízes no país.

Em São Paulo o pioneiro introdutor do imigrante português foi o ex-proprietário da Sesmaria do Monjolinho (no atual Campus da UFSCar), Nicolau Vergueiro (1774-1859), que importou 90 famílias portuguesas para a sua Fazenda Ibicaba, Rio Claro.

Em 1886 São Carlos recebeu 76 portugueses e o censo rural promovido pelo Clube da Lavoura em 1899 informa a presença de 886 e em 1907 são registrados 1.570 imigrantes de Portugal.

2)      Em “Breve Notícia Histórica de S. Carlos – 1917” o “Correio de São Carlos” (01/07/47) destaca que: “(..) A colônia lusitana de S. Carlos, tendo em vista a entrada de Portugal na guerra, reuniu-se no edifício do Clube Concórdia a fim de se resolver sobre fins altamente patrióticos e humanitários. Compareceram influentes membros da colônia aqui domiciliada e elegeu-se a diretoria  e comissão consultiva que deveria dirigir o movimento de solidariedade aos portugueses desta cidade em prol do seu país, ofendido na sua honra e no seu brio pela Alemanha. A diretoria ficou assim constituída:

Presidente honorárioFrancisco Ferreira
PresidenteJúlio do Sacramento Rocha
Vice-presidenteJoaquim P. Ruas
1.o TesoureiroBernardino F. Nunes
2.o TesoureiroJosé de Oliveira
1.o SecretárioAlexandre Simões Rodrigues
2.o SecretárioAntonio Accacio

A Comissão Consultiva:

José P. Urbano, Joaquim Olaio, Valentim Guimarães, José da Silva Coelho e Agostinho M. Santiago

Entre outras coisas resolveu-se a realização de festas populares, em benefício da Cruz Vermelha Portuguesa (..)”.

Na edição de 05 de agosto de 1947 o periódico registra a “Cruzada das Mulheres Portuguesas de S. Carlos” cuja diretoria está assim constituída:

PresidenteRosa de Jesus Ferreira
Vice-presidenteNella L. Olaio
1.a TesourariaAna F. Nunes
2.a tesourariaTheodora M. de Oliveira
1.a SecretariaGeraldina de Araújo Rodrigues
2.a SecretariaIsabel de Salles Pinto
Conselho ConsultivoQuininha A dos Santos Valentie, Philomena Martins

Fonte: CSC, 05/08/45

A Cruzada objetiva angariar donativos para os filhos dos soldados lusitanos mortos na Grande Guerra.

 3 )      Registra Benedito C. Pereira a obra do capitão-de-indústria Francico Ferreira em “A Cidade” (14/12/1961): “(..)  A famosa e tradicional Serraria Santa Rosa, indústria que, sem dúvida, tem elevado o nome de nossa terra, quer pela apresentação de produtos à altura das exigência dos consumidores, quer pelas características fundamentais do seu sistema de comércio, que prima em bem servir, mantendo desta forma, o nível de honestidade que caracterizou o seu fundador, sr Francisco Ferreira. Este, pertencendo embora às terras lusitanas, fez de São Carlos sua nova pátria, berço de seus filhos e deixou em todos os que o conheceram o traço imaterial e irremovível de saudade.

Todo vigor e disposição de espírito da raça lusitana tem sua confirmação nas realizações bem alicerçadas dos homens que construíram a nossa pátria, forjando-a, desde o seu início nos mesmos moldes do trabalho incessante, incansável e honesto que caracteriza suas tradições na própria tradição histórica do povo brasileiro.  São Carlos teve honra de contar com homens dessa envergadura moral para iniciar os seus  primeiros passos; e sente-se hoje na obrigação de ressaltar a figura marcante do falecido sr Francisco Ferreira, cuja personalidade inconfundível deu mostras de quanto pode o espírito humano de iniciativa e trabalho.  Vindo de Portugal em 1889, Francisco Ferreira aqui  se casou com uma distinta senhora portuguesa d quem teve 8 filhos. Um de seus filhos, sr Oscar Ferreira, exerce a função de diretor da indústria ora focalizada e as altas e dignificantes funções de diretor de vice-cônsul de Portugal em São Carlos, funções essas que foram igualmente exercidas por seu pai até 1919. Desde o início da fundação [ 1908 ] a Serraria Santa Rosa tem primado em bem servir, oferecendo principalmente qualidade, o que lhe garantiu a ascensão extraordinária e o conceito de que desfruta no comércio, distinguida que é com a preferência cinquentenária de seus inúmeros fregueses espalhados por todo o país. Em um álbum editado pela companhia Paulista de Estradas de Ferro em 1918, tivemos oportunidade de tomar conhecimento de que, já naquela época, a Serraria Santa Rosa era uma das maiores fornecedoras de dormentes à Companhia, mantendo ainda hoje essas grandes possibilidades, graças ao desenvolvimento sempre constante das suas dependências industriais e do progresso técnico (..) Para descrever os aspectos internos da indústria, não podíamos deixar de iniciar pelos seus escritórios amplos e arejados (..) Na parede, as cartas geográficas de Portugal e Brasil e o retrato do velho fundador da indústria; um ramo de café , alguns exemplares da produção agrícola e modernas revistas industriais dão-nos em síntese, uma idéia da orientação seguida pela diretoria – um mixto de conservador e inovador.   Nas oficinas, sob a vigilância calma e serena do sr Oscar Ferreira, meia centena de trabalhadores dedica-se o seu afã cotidiano, desenvolvendo o trabalho industrial que lhe é conferido. Tornos, esmeris, forjas, serras de todos os tipos, máquinas de assentamento, caldeiras a vapor, gerador elétrico, máquinas operatrizes, máquinas para fazer furos os mais diversos, desempenadeiras, plaina de três fases, serra de fita, etc..  formam o conjunto mecânico, que, auxiliado por mãos hábeis de técnicos, se encarrega da produção completa a que se destina a matéria prima respectiva. Externamente, embora não se revista de caracteres luxuosos, tem a aparência imponente das grandes indústrias.

A Santa Rosa conta ainda com oficina mecânica própria, onde são executados todos os serviços deste ramo. Possui uma enorme caldeira a vapor, que impulsiona toda a energia da indústria e, até mesmo, o gerador elétrico é movido por esta potente caldeira. Uma caixa, no centro da indústria, abriga um regulador de voltagem, o . gerador e um disparador automático. Possuindo poços próprios, mantém duas caixas de água: uma para vinte mil litros, sempre cheia, graças ao disparador automático, e outra ( de emergência ) para treze mil litros; a rede de água, que serve a todas as dependências, inicia-se com duas e meia polegadas e continua, em sua extensão total com uma e meia polegada. Sete bocas de incêndio, completam as instalações respectivas. Diversos depósitos foram por nós visitados, destacando-se depósito de óleo, o depósito de tacos, de todos os tipos, tamanhos e desenhos, fabricados pela indústria, além de depósitos de assoalhos e de móveis Formiplac.  Ressaltam ainda, a execução de serviços, por oficinas próprias, tais como a seção de afiação de serras, além de máquina de amolar facas de todos os tipos, inclusive as grandes facas para tipografias.  Um moderno sistema de contabilidade, à altura das exigências atuais, e a perfeita harmonia reinante no seio da indústria, entre comandantes e comandados, deram-nos a satisfação de completar nossa curiosidade jornalística (..)”.

O “Correio de São Carlos”  de 09 de novembro de 1947 informa: “(..) Francisco Ferreira. Um pioneiro da indústria são-carlense (..) Filho ilustre o velho e nobre Portugal, para aqui veio nos albores de sua mocidade, dedicando-se, desde sua chegada no Brasil, ao trabalho, que ele amou como ninguém.

Assim engrandeceu sua terra adotiva – o Brasil – e assim contribuiu valorosamente para o progresso desta S. Carlos, que ele considerou como sua terra natal.

Perde-se nas noites dos tempos o primeiro esforço de Francisco Ferreira, para estabelecer-se e forma-se nas terras brasileiras, que sempre se apresentaram sua segunda Canaã aos europeus desejosos de fazer fortuna.

Francisco Ferreira não era, porém, desses temperamentos que desanimam às primeiras arrancadas e assim perseverou em seus intuitos e tanto trabalhou, que conseguiu,  não sem ingentes sacrifícios, fixar seu lugar sob o sol tórrido do Brasil.

Os são-carlenses mais antigos por certo se lembram daquele moço entusiasta, que aqui chegou trazendo uma grande esperança ao coração e uma vontade firmemente delineada. Francisco Ferreira pode ser catalogado, sem favor, entre os pioneiros da indústria são-carlense, e, por conseqüência, entre os propulsores mais decididos do progresso do Município.

Empregando todas as suas energias e todo o seu trabalho em prol da coletividade, Francisco ferreira promoveu à fundação, nesta cidade de uma grande indústria, a ‘ Serraria Santa Rosa ’, empreendimento arrojado, e que até hoje é uma das maiores indústrias, no gênero, em todo Estado de São Paulo, ente mesmo Estado que, sem favor algum, é o maior centro industrial da América Latina.

Estabelecendo-se nesta cidade, à Rua Riachuelo, Francisco Ferreira fez edificar uma enorme fábrica, cuja chaminé altaneira, preta, de metal, é como um ponto de exclamação plantado em solo são-carlense, sempre a testemunhar o arrojo da iniciativa de um filho do heróico Portugal, herdeiro legítimo das tradições épicas dos descobridores do Brasil.

Nesse empreendimento econômico que incalculáveis benefícios trouxe e ainda traz para a coletividade, Francisco teve o apoio de diversos colaboradores, entre os quais o sr Agostinho Martins Santiago, seu associado até 1930.

Sempre, porém, a vontade e orientação do sr Francisco Ferreira foram respeitadas e seguidas, pois que o fundador da ‘Serraria Santa Rosa’ jamais se desinteressou pelos destinos da grande indústria que nasceu do seu labor.

Vendo firmado, em S. Carlos, o fruto de seu trabalho, Francisco Ferreira pode visitar sua terra natal diversas vezes, sendo que da última vez que foi para Portugal foi em 1927. Como já dissemos, porém, Francisco Ferreira, mesmo longe, no ambiente tranqüilo do ‘jardim a beira-mar plantado’, que é Portugal, jamais perdeu contato com esta terra são-carlense, que fez as pelo coração, com as dezenas e dezenas de operários, que ele sempre considerou como seus colaboradores e não meros subordinados.

Com o correr dos anos, as saudades do Brasil imenso foram se acentuando em se velho coração lusitano, e um belo dia – há cerca de um mês – Francisco Ferreira aportou em S. Carlos, esta cidade que ele ajudou a crescer, que ele viu ensaiar os primeiros passos como centro industrial de primeira grandeza, e que ele não visitava há vinte anos (..) Quis o destino que aqui, nesta cidade que ele elegeu como sua, Francisco Ferreira findasse seus dias. E justamente quando todos comemoravam o padroeiro da cidade, esse batalhador incansável tombou, como tombam na mata os jequitibás gigantescos, abrindo uma imensa clareira nesta floresta de trabalhadores que é S. Carlos (..)”.

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