Alimentos manterão preços altos, avisa especialista
Ex-presidente nacional da Embrapa, Silvio Crestana afirma que apesar desta realidade, a boa notícia é que não teremos desabastecimento

O preço dos alimentos deve continuar em alta em 2021. A complexa conjuntura econômica, que inclui a alta demanda por alimentos por parte da China e a lógica do mercado em meio à crise da Covid-19, não permite que haja uma redução nos valores das proteínas e mesmo de legumes, verduras e frutas. De um lado um agronegócio brasileiro potente abastece o mundo com sua megaprodução, surfando com um dólar em alta. Na outra ponta desta realidade está o produtor interno que não tem volume de produção e condições tecnológicas e estruturais para concorrer no mercado externo. Para estes resta uma alta redução nas margens de lucros, numa “tempestade perfeita” com altos valores dos insumos que adquire em dólar e aumenta seus custos e de outro um mercado consumidor em crise que não aceita aumento de preços. No meio desta realidade fica o consumidor, que teve que substituir a carne bovina de primeira pela de segunda ou então migrar para o consumo de aves ou de suínos. A análise é do ex-presidente nacional da Embrapa, Silvio Crestana. PHD em Física e um dos maiores cientistas do Brasil em atividade, Crestana conhece como ninguém o mercado internacional e o mundo da agropecuária.
PRIMEIRA PÁGINA – Professor, o senhor acredita que os preços dos aimentos deva cair em 2021, ou continuará nesta alta atual?
SILVIO CRESTANA – O ideal seria encontrar um equilíbrio entre a necessidade da lucratividade de quem produz e a necessidade do brasileiro que precisa se alimentar com qualidade. Mas esta equação não é nada fácil. Existe o mercado interno e o mercado externo. Os grandes produtores estão abastecendo com intensidade o mercado externo, se aproveitando principalmente do dólar em alta. Mas existem os produtores que têm foco no mercado interno. Estes estão vivendo sérias dificuldades. Afoinal, o custo de produção é alto, pois exige defensivos, antibióticos, adubos e etc… Tudo isso é cotado em dólar. E ele tem que vender o produto em reais. Além disso, nossa conjuntura econômica é complicada, com 14 milhões de desempregados. Se houver continuidade no auxílio emergencial, pode haver uma melhora no mercado. Se o Governo Federal colocar alguma barreira no jogo do mercado, há uma reação imediata. Isso já foi feito sempre com resultados muito ruins. Além de tudo isso ainda existem os fenômenos naturais. A La Niña está atrasando a colheita de soja e de milho e isso deve gerar sérias consequências. Assim, a má notícia é que os preços dos alimentos continuarão altos em 2021 e a boa notícia é que graças a Deus não teremos desabastecimento, que é o pior dos mundos.
PP – O Governo Federal pode entrar neste jogo de alguma forma para buscar uma queda nestes preços?
CRESTANA – Na verdade, intervenção não resolve. Se o governo tomar uma medida que desfavoreça o mercado ele reage imediatamente para se proteger. Você percebe isso na questão do auxílio emergencial. Toda vez que o Governo fura o teto de gastos o dólar sobe. Isso é reação do mercado. A própria relação entre China e Estados Unidos, nossos maiores parceiros comerciais, passará pela postura do novo presidente, Joe Biden. Mas existem fatos que também podem ajudar o Brasil. Há alguns dias a China vem enfrentado peste suína africana contaminou os suínos em Hong Kong. A China teve que sacrificar três milhões de suínos. É um país com 1,4 bilhões de habitantes e o Brasil é a bola da vez para ser o grande fornecedor de proteína para os chineses.
PP – Houve mudança nos hábitos do consumidor diante da disparada dos preços da carne bovina?
CRESTANA – Sim, lógico. A cada “ação” do mercado há uma “reação” do consumidor. Neste caso houve uma corrida para a carne bovina de segunda. O consumidor deixou o filé mignon, a picanha, a alcatra e o contra-filé e migrou para o acém, a costela, a ponta de peito, a paleta, o músculo e outras. Está forte demanda provocou forte aumento de preços também nestas opções. O preço da costela saltou em 30% em 2020. Em média a carne de segunda teve aumento de preços de 18%. Enquanto isso o filé mignon sofreu queda de preço de 6%.
PP – O que o senhor pensa da dicotomia entre agronegócio e agricultura familiar?
CRESTANA – Na verdade é uma falsa dicotomia. Os dois são fundamentais par ao país e os dois cumprem papeis diversos, mas ambos importantes para o Brasil. Nós temos 5,2 milhões de produtores agrícolas. Deste total, 4,5 milhões são pequenos agricultores ou pecuaristas. O Governo Federal, através do Programa Nacional de Alimentação Estudantil, repassa a Municípios e Estados, um total de R$ 4 bilhões anualmente para a aquisição de alimentos, sendo que 30% deste total, legalmente, tem que ser adquirido da agricultura familiar. O agronegócio é fundamental para o Brasil, gera divisas, é fundamental para a nossa balança comercial, gera milhares de empregos, investe em novas tecnologias, moderniza nosso campo. Por outro lado, o pequeno comércio faz a economia do município girar. Cada R$ 1 investido pelo pequeno produtor para produzir, a verdura, o legume, o leite, o queijo ou outros derivados se tornam rapidamente R$ 2 dentro da rede de armazenamento, distribuição, aquisição de insumos e etc.
PP – A Covid-19 afetou muito o pequeno produtor?
CRESTANA – Com certeza afetou. E muito. Afinal, o isolamento social, o distanciamento social mudou tudo. Veja, mesmo nos funerais a venda de flores era muito grande, com velórios longos. Agora tudo é feito às pressas para se conter a pandemia. Além disso, tradições como aniversários, Dia dos Namorados, Dia das Mães e outros são afetados. E o mercado de flores é 100% formado por pequenos produtores, pela agricultura de caráter familiar.
PP – E os estoques reguladores?
CRESTANA – O estoque regulador seria, sim, uma política pública fundamental neste momento. Ele nada mais é do que um estoque de produtos formado pelo Governo Federal, que compraria estes produtos e os estocaria em silos. Assim, quando os preços estivessem muito altos, o Governo poderia vender este estoque para fazer os preços caírem, chegando a um equilíbrio. Mas já há algum tempo estes estoques não vêm sendo implementados. Talvez porque não tenhamos atualmente os recursos necessários para tal política pública.
PP – Qual é a expectativa do campo para receber novidades como internet 5G e internet das coisas?
CRESTANA – Estas novas tecnologias vão revolucionar ainda mais o campo brasileiro. A roça vai receber tudo isso. É uma questão de tempo. Nosso principal fator limitador é a dificuldade de o sinal chegar ao campo com qualidade. Ainda temos baixa cobertura de sinal. Acreditamos que à medida em que esta demanda crescer, as empresas buscarão fazer os investimentos necessários para romper estes obstáculos. A partir disso o mundo do campo e a relação dos produtos agropecuários com o consumidor nunc a mais serão os mesmos.
PP – Explique como.
CRESTANA – Os consumidores passarão a ter, nas embalagens dos produtos, informações como o produto que recebeu maior ou menor quantidade de defensivos agrícolas, quantos litros de água foram utilizados, qual o produto mais saudável e etc. Isso tudo estará acessível em QR Cold na embalagem do produto, podendo ser escaneado e acessado no smart phone do consumidor.
PP – Professor, felizmente Thomas Maltus, o pensador apocalíptico que no Século XVIII previa a fome geral com o crescimento da população, estava enganado. Ele não poderia contar com a tecnologia no campo. É isso?
CRESTANA – Graças a deus, sim. Ele errou aí. Ele não podia prever o incremento tecnológico que o ser humano iria gerar para melhorar e ampliar a produção agropecuária. Antes da revolução industrial tivemos uma revolução agrícola. Novas sementes, novas formas de manejo do solo para corrigir acidez e superar outros fatores, novos arados com tração animal e etc. surgiram nos séculos XVIII e XIX. Depois vieram motor a combustão, máquinas e implementos agrícolas, corretivos, fertilizantes e etc. O cerrado, por exemplo, é improdutivo se você não corrigir a acidez do solo. Assim, a ciência chegou para ficar no campo possibilitando uma produção de alimentos cada vez maior necessitando de menos gente trabalhando. Felizmente, hoje, mais de metade da população mundial é de classe média e nãoi mais pobre. É algo para ser muito comemorado. Uma vitória do ser humano.



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