Indústria prevê recuperação lenta após o fim da pandemia

Setor de alimentos mantém nível de produção mas outros estão parados
No Dia da Indústria, comemorado nesta última segunda-feira
(25), o setor acredita que os efeitos da pandemia serão maiores enquanto durar
o distanciamento social. Pesquisas recentes da Federação das Indústrias do
Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostram que os empresários ainda estão
pessimistas para os próximos seis meses. “E isso é devido, principalmente, à
falta de perspectiva do fim do ‘lockdown’ (confinamento ou bloqueio total).
Enquanto os empresários não têm um horizonte de volta à normalidade, isso acaba
afetando diretamente as expectativas”, disse à Agência Brasil o gerente de
Estudos Econômicos da Firjan, Jonathas Goulart.
Ele destacou que a grande dificuldade é fazer com que as medidas de socorro
anunciadas pelo governo federal cheguem na ponta aos empresários, sobretudo os
de pequeno porte, que são os tomadores de crédito final. A Firjan defende que
esse crédito tem de chegar ao empresário, principalmente por meio dos bancos
públicos, que são o canal mais direto do governo para o empresariado.
Pesquisa divulgada pela entidade, no último dia 13, estima que a pandemia do
novo coronavírus levará o estado do Rio de Janeiro a ter uma queda do Produto
Interno Bruto (PIB) este ano da ordem de 4,6%, a maior da série histórica
iniciada pela entidade em 2002. A redução é puxada, principalmente, pelas
quedas da indústria (-5,3%) e de comércio e serviços (-4,3%). A indústria de
transformação, que estava dando sinais de recuperação, deverá sofrer retração
de 5,2% no ano, enquanto a indústria extrativa mineral de petróleo e gás deverá
cair 6,1% em 2020.
Confiança
O economista da Firjan afirmou que no cenário que está se vivendo atualmente no
Brasil, os investimentos estão praticamente parados.
O Índice de Confiança do Empresário Industrial Fluminense (Icei-RJ), divulgado
pela Firjan na semana passada, revela que a queda da confiança em maio atingiu
32,8 pontos, o segundo pior resultado da série histórica, iniciada em 2010. O
pior resultado foi registrado em dezembro de 2015, com 32,7 pontos. A pesquisa
tem pontuação que varia de zero a 100. Os resultados superiores a 50
representam melhora ou otimismo e os inferiores indicam piora ou pessimismo.
Na avaliação de Jonathas Goulart, alguns setores estão conseguindo fazer uma
reconversão industrial, enquanto outros estão sentindo mais fortemente os
reflexos da pandemia. No lado da oferta, um dos setores mais prejudicados é o
automotivo, que não tem conseguido importar insumos para fazer sua produção. No
lado dos alimentos, as indústrias têm mantido o nível de produção. Quando essa
fase passar, Goulart indicou que todos os setores vão sentir o problema de
demanda, ou seja, a sociedade interrompendo o seu consumo. “Isso vai afetar a
economia de maneira linear”, com reflexo também no varejo, no médio prazo.
Para o diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Carlos Abijaodi, a indústria terá que buscar negócios e
colocar sua produção, “com todas as restrições que ainda vão ser impostas pelo
período de transição”. Ele acredita que devido às imposições sanitárias e ao
afastamento exigido entre as pessoas, poderá haver redução de funcionários ou,
talvez, trabalho em dois turnos.
No momento, vão continuar tendo destaque os setores de abastecimento primário,
como alimentos, remédios, limpeza. “Esses vão continuar com uma intensidade até
maior”. Já os produtos considerados supérfluos devem ter a produção e a procura
adiadas. “Nós vamos ter um ambiente de comprador diferente”.
Carlos Abijaodi não estima quando a indústria nacional poderá voltar à
normalidade, porque o país é muito grande e cada estado tem um comportamento
diferente em relação ao combate ao novo coronavirus. Destacou, no entanto, que
a exceção é a região Sul, que mostrou um comportamento diferenciado do resto do
Brasil.
Importação
O presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira dos
Importadores de Máquinas e Equipamentos Industriais (Abimei), Ennio Crispino,
explicou à Agência Brasil que desde março o nível de atividade da indústria
caiu de forma sensível, em especial no que se refere à indústria
automobilística. “Talvez o setor metalmecânico tenha sido o mais atingido”. O
setor envolve não só as montadoras, mas as cadeias de fornecedores, e isso
trouxe uma paralisação na expectataiva de novos investimentos, no tocante a
máquinas e equipamentos importados.
Crispino informou que esses investimentos não foram cancelados, mas adiados e
só serão retomados quando a atividade voltar a um nível próximo do normal,
coisa que ele aposta que dificilmente ocrrerá antes de meados do segundo
semestre. Avaliou que a questão do câmbio é desfavorável à moeda brasileira em
relação ao dólar e ao euro.
“O empresário brasileiro terá que se acostumar com outra realidade do câmbio”,
apontou.
Segundo Crispino, o que poderá ser benéfico para o Brasil é que tudo aqui está
muito mais barato pensando em dólar, como mão de obra e o chamado custo Brasil.
O que está mais caro é trazer de fora matéria-prima, insumos, máquinas e
equipamentos. “Esse é um preço que se terá que pagar quando as coisas se
estabilizarem. O grande e maior benefício que nós enxergamos é que voltará a
ser muito mais barato fabricar no Brasil”.
Salientou ainda que, a curto prazo, as notícias são ruins, mas a médio e longo
prazos, a partir do segundo semestre deste ano e no decorrer de 2021, deverá
haver grande procura pelo investimento em máquinas e equipamentos nacionais e
importados. “A indústria está defasada tecnologicamente. Para voltar a fabricar
no Brasil precisa se equipar”. Isso será benéfico, particularmente, para a
exportação de bens manufaturados. “Porque será mais barato do que em outras
partes do mundo. É nisso que a gente acredita. Portanto, há uma expectativa boa
para os meses à frente”, concluiu.



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