Pandemia impõe ajustes à globalização e revisão do modelo

Especialistas apostam em problemas para a China e substituição de importados, mas professor vê a integração como solução e não como problema
O modelo de globalização com a distribuição das cadeias produtivas em todo o planeta está com os dias contados. Mesmo que sejamos capazes de dominar a pandemia do coronavírus, seus efeitos devem levar a uma revisão do sistema. A crise sanitária agravou ainda mais o clima negativo que já havia com a guerra comercial entre EUA e China e da crescente incerteza sobre o futuro do livre comércio.
No passado, problemas como o terremoto e o tsunami de 2011 no Japão, eram vistos como eventos isolados. Não se esperava que esses distúrbios temporários prejudicassem seriamente um modelo de negócios estável e bem-sucedido, construído sob o pressuposto de que a globalização não seria abalada.
Ao mesmo tempo, a covid-19 expôs o que muitos consideram uma dependência excessiva de fornecedores localizados na China. A província de Hubei, onde a epidemia começou, responde por 4,5% do PIB chinês; 300 das 500 maiores empresas do mundo têm instalações em Wuhan, capital de Hubei. Lá a epidemia provocou uma ruptura nas cadeias de fornecimento em todos os continentes, antes que se tornasse uma pandemia.
O economista e professor da UFSCar, Luis Fernando Paulillo, afirma que enganam-se aqueles que creem que a China pode ser a grande ganhadora de um mundo pós-pandemia. “Pelo contrário. A reconversão industrial que todos os países passarão a planejar vai fazer com que a China sofra um grande abalo nas cadeias produtivas e que abasteciam todo o planeta. O exemplo é o que vemos nos suplementos hospitalares que vinham da China para o Brasil e não chegaram. Pararam no Aeroporto de Miami e no circuito dos aviões. Há escassez de produtos e os próprios países onde o avião fazia escala tinha interesse em ficar com a mercadoria.”
A China pode ser uma das grandes perdedoras desta crise. “Não só porque a crise começou lá e houve um impacto muito grande, assim como na Itália e nos Estados Unidos. A opção do capitalismo mundial em se servir de cadeias de suplemento global com o vértice principal da cadeia sendo a China vão ser revistas. O nível de desconfiança nestas cadeias será muito grande e a China deve sofrer muito com isso”.
O presidente da Fundação ParqTec, professor Sylvio Goulart Rosa Júnior acredita que a nova realidade imporá ao Brasil a substituição de vários componentes industriais que antes da pandemia eram importados. “A nacionalização de produtos e peças como aconteceu nos dois períodos de guerras mundiais com substituição de produtos importados pode se tornar uma realidade. Esta nova necessidade deverá gerar oportunidades de investimentos dentro do país e, também, provocar sérios ajustes na globalização da economia”, comenta ele. Segundo Rosa Júnior, a crise não causou desemprego no setor da alta tecnologia de São Carlos, que atua com empresas muito enxutas, mas está impedindo o crescimento de algumas delas.
NA CONTRAMÃO
Para Ney Vilela, globalização é usada como “bode expiatório”
Mas há quem pense de forma diferente. O historiador e escritor Ney Vilela afirma que a globalização tem sido, de forma equivocada, colocada com a grande vilã da crise do novo coronavírus. Ele afirma que o frenesi reacionário contra a integração econômica planetária não passa de um “ruído demagógico” que logo silenciará.
Ele aposta que para reduzir os estragos provocados por novas epidemias precisaremos – por meio de órgãos como a OMS e da colaboração de cientistas de todos os países – de mais globalização, e não de menos. E precisaremos de Estados que se preocupem mais com o bem estar e a saúde de seus cidadãos. “Outro fator determinante para que a pandemia tenha ocorrido é a população planetária, em torno de sete bilhões de pessoas. Tal contingente só pode ser alimentado, vestido e abrigado a partir de esforços conjugados de todas as pessoas do planeta. Para que tenhamos menos ocorrência de viroses letais, mais globalização – e não menos – é necessária: os camponeses de Wuhan precisam ingerir carne vinda do Brasil, ao invés de espécimes animais exóticos”, explica ele.
Vilela afirma que quando a crise da covid–19 ceder, o trabalho remoto, o ensino à distância, a preocupação com a saúde dentro das fábricas são as novas realidades que se imporão. “A logística evoluirá: os centros de distribuição irão automatizar o embarque de produtos nas vans, caminhões e trens; os navios também devem ampliar a automatização dos embarques. Centrais logísticas irão otimizar os deslocamentos dos meios de transporte. A distribuição final lançará mão de apoio dos drones. As cargas devem se deslocar, não as pessoas”, comenta.
Segundo o professor a própria sobrevivência dos ricos imporá uma preocupação geral com a saúde dos mais pobre. “A preocupação com o próximo será ampliada: como a saúde dos muito ricos está cada vez mais dependente da sanidade física dos muito pobres, a melhor distribuição de rendas deixará de ser uma bandeira política ou de generosidade romântica para se tornar uma exigência de toda a sociedade planetária. Enfim, a pandemia não nos encarcerará em nossa província, mas potencializará as transformações globalizantes que já estão em cena”, conclui o especialista.






Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.