Governo defende crédito a elétricas para evitar aumento na conta de luz

O empréstimo bilionário que o
governo negocia para ajudar o setor elétrico a enfrentar os efeitos da pandemia
do novo coronavírus tem o objetivo de evitar reajustes de dois dígitos na conta
de luz já a partir do segundo semestre, segundo a secretária executiva do
Ministério de Minas e Energia, Marisete Pereira.
Para ela, o financiamento, cujos valores são
estimados em R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões, poderá diluir, em até cinco anos, o
peso de itens que vão onerar as tarifas de energia dos consumidores. “Só
vamos fazer o empréstimo após uma avaliação que considere se essa opção, para o
consumidor, é melhor do que um reajuste de duas casas decimais”, afirmou,
em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast.
A conta de luz é composta por diversos itens,
como geração, transmissão, distribuição, encargos e tributos. Desses, três
devem contribuir com um aumento de 7% nos próximos meses. “Isso tem nos
preocupado muito. Quase 60% da população foi afetada pela crise. Não há a menor
condição ou ambiente para fazer isso “
Um dos componentes que vão aumentar é a tarifa
de Itaipu, que é cotada em dólar. No ano passado, ela foi precificada
considerando uma cotação média de R$ 3,94, e agora, o dólar subiu a R$ 5,24.
“Só isso já aumenta a conta em 2% ou 3%”, alertou a secretária
executiva.
Marisete lembra também que as tarifas das transmissoras
serão reajustadas a partir de julho. Além disso, as contas de luz vão ter de
incluir a parcela para bancar subsídios e descontos tarifários, estimados em R$
22 bilhões neste ano.
Como a pandemia afeta diretamente a renda dos
trabalhadores, seja por redução de salários, seja por demissões, a ideia do
governo é intermediar um empréstimo com um consórcio de bancos públicos e
privados para que os recursos sejam pagos para as distribuidoras, evitando um
reajuste neste ano.
A inadimplência tem atingido índices entre 10% e
12%, chegando a 20% em algumas localidades. Sem receber pagamentos, essas
empresas não conseguem honrar suas despesas com transmissoras, geradores e até
mesmo com o governo, que recebe encargos e impostos.
Os empréstimos, porém, serão negociados em
condições melhores que os de 2014, que somaram R$ 21 bilhões e aumentaram a
conta de luz em 6% por cinco anos, afirmou Marisete. “Diferentemente do
passado, quando os juros estavam em um patamar exorbitante, de 11% ao ano, hoje
temos uma Selic (taxa básica de juros) em 3,75% ao ano. Isso é um índice muito
inferior aos juros cobrados no cheque especial e no cartão de crédito. Temos
hoje condições de desenhar um modelo benéfico para o consumidor.”
As medidas serão avaliadas pelo governo em
conjunto com a Aneel e levarão em conta todas as sugestões do órgão regulador.
Preocupados com o impacto nas tarifas, os diretores da agência propuseram o uso
de fundos setoriais para reduzir o valor do empréstimo. “Nós só vamos
contratar no empréstimo aquilo que seja estritamente necessário. Todos os
recursos disponíveis e possíveis de serem canalizados para o setor serão
usados”, disse Marisete.
As medidas do governo para enfrentar a pandemia
no setor elétrico consideram um horizonte de três meses, mas poderá haver ações
adicionais caso a crise se prolongue para além desse período. “É o que a
Organização Mundial da Saúde (OMS) sinaliza. Trabalhamos para que possamos
estabilizar essa questão da saúde em três meses para que a economia possa
voltar a funcionar”, explicou. “Isso não quer dizer que, se a crise
se prolongar, não possamos usar outros instrumentos. São medidas iniciais.”



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