Há 30 anos, brasileiro recebia o anúncio de confisco da poupança

Imagine
acordar e descobrir que o governo bloqueou todos os saques em valores
superiores a R$ 18 mil, isso em aplicações financeiras, caderneta de poupança e
até na conta corrente. Foi esse o cenário encontrado pelos brasileiros em 16 de
março de 1990, quando foram detalhadas as medidas do Plano Collor 1. Baseado na
prefixação da correção de preços e salários, câmbio flutuante e aumento de
tributação sobre aplicações, trazia como ponto mais polêmico o confisco de 50
mil cruzados novos da época (equivalentes hoje aos R$ 18 mil). O enxugamento
drástico de dinheiro em circulação no País serviria para lidar com uma inflação
que, nos cinco anos anteriores, somara 1.062.000%.
“Não havia alternativa”, diz o
ex-presidente e hoje senador Fernando Collor de Mello (Pros-AL). “Vários
economistas se pronunciaram dizendo que, se não fosse aquele bloqueio de
ativos, chamado equivocadamente de confisco, não poderia ter havido o controle
de preços de forma satisfatória.”
Passados 30 anos, a fila de investidores que
buscam o ressarcimento de perdas não é pequena. Segundo estimativa dos bancos e
de órgãos de defesa do consumidor, existem hoje pelo menos 144 mil poupadores
ou seus herdeiros elegíveis a pleitear compensação financeira.
Na semana passada, foi anunciada a assinatura de
um novo acordo entre o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec),
Frente Brasileira dos Poupadores (Febrapo), Confederação Nacional do Sistema
Financeiro (Consif) e Federação Brasileira de Bancos (Febraban), ampliando em
mais cinco anos o prazo para demandar a compensação de antigos planos
econômicos – entre eles, o Plano Collor 1. A mudança ainda precisa ser
homologada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O limite de adesão ao acordo era de dois anos,
contados a partir da primeira homologação do STF, em março de 2018. Em troca da
extinção das ações judiciais sobre o tema, os bancos se comprometeram a pagar
aos poupadores a diferença entre o índice de inflação vigente no período e a
atualização monetária que efetivamente incidiu sobre os depósitos nas
cadernetas, os chamados expurgos inflacionários.
‘Medidas duras’
Foi uma enxurrada de decretos e medidas
provisórias que o próprio Collor anunciou no dia da posse (15 de março) e
entregou, na manhã seguinte, ao Congresso. “São medidas duras e
profundas”, disse na ocasião a então ministra da Economia Zélia Cardoso de
Mello em uma conturbada entrevista convocada para explicar o pacote.
Três dias antes, a própria Zélia havia
descartado a possibilidade de um confisco. Os rumores sobre a divulgação de
alguma medida de impacto no mercado financeiro começaram a circular no começo
daquela semana, quando, a pedido de Collor, o ainda presidente José Sarney
decretou feriado bancário de três dias (14, 15 e 16 de março). O brasileiro,
escaldado por dez planos econômico nos últimos 25 anos, sabia que essa era a
senha para novas mudanças.
Nos choques anteriores, porém, houve feriado
apenas nos dias posteriores às divulgações das medidas, para adaptação do
mercado financeiro às novas regras. “Nos últimos dias, foram percebidos
movimentos especulativos, que poderiam causar intranquilidade”, afirmou
Zélia, na ocasião, em defesa dos feriados bancários. O presidente do BC no
final do governo Sarney era Wadico Bucchi. Seu sucessor no período de Collor
foi Ibrahim Eris.
Três dias antes do anúncio do pacote, aquela que
seria a ministra da Economia de Collor foi perguntada diretamente sobre o risco
de um confisco. Na saída de reunião, em Brasília, ouviu-se a pergunta:
“Vai haver confisco no over?”. O overnight era uma aplicação
financeira que rendia aos investidores taxas de juros diárias, e não mensais,
como habitualmente acontece hoje. “Meu dinheiro continua depositado no
over”, ela respondeu. Nova pergunta: “Vai haver confisco de dinheiro
no mercado financeiro?” “Não”, respondeu. Procurada na semana passada,
Zélia disse que não daria entrevista.
4 PERGUNTAS PARA…
Fernando Collor de Mello, ex-presidente e
senador (Pros-AL)
1. O plano anunciado por seu governo não foi
ambicioso demais?
Sem dúvida, porque ambicioso era o nosso ideal.
Quando fizemos o congelamento, tínhamos de resolver a questão do excesso de
moeda na economia. E vários economistas se pronunciaram dizendo que, se não
fosse aquele bloqueio de ativos, chamado equivocadamente de confisco, não
poderia ter havido o controle de preços de forma satisfatória.
2. Olhando agora, teria reduzido ou
escalonado as alterações?
Não havia alternativa.
3.Por que não deu certo?
Em primeiro lugar, pela falta de sustentação
política e parlamentar.
4.Mas seu plano foi todo aprovado (na Câmara
e no Senado)
Tomei posse em março e, em outubro, nós tivemos
uma eleição. O Congresso mudou. Já aí eu carregava o desgaste que qualquer
governo de início carregava consigo. E também uma ampliação daqueles que faziam
oposição. Então, com esse Congresso, eu demorei a me conciliar. Esse foi um erro
fatal. É um erro fatal para qualquer presidente achar que pode governar sem o
apoio do Congresso Nacional.



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