Procuradoria denuncia onze por ração ‘turbinada’ na Operação Trapaça

O Ministério
Público Federal no Paraná denunciou onze funcionários da empresa BRF no âmbito
da Operação Trapaça. A acusação aponta irregularidades supostamente cometidas
na fabricação de rações e do composto Premix – complemento adicionado às rações
– da empresa, no mínimo, entre os anos de 2014 e 2018.
As informações foram divulgadas pela
Procuradoria no Paraná – Autos – 5016545-69.2019.404.7009.
A Procuradoria divulgou os nomes dos onze
acusados – Augusto Heck, Fabiana Rassweiller de Souza, Fabrício da Silva
Delgado, Gilberto Antônio Orsato, Gisele Groff, Ivomar Oldoni, Natacha
Camilotti Mascarello, Patricia Tironi Rocha, Priscilla Karina Vitor Köerich,
Tatiana Cristina Alviero e Valter João Vivan Junior.
Eles foram denunciados pelos crimes de
estelionato qualificado, falsidade ideológica, invólucro ou recipiente com
falsa indicação, falsificação de substância ou produto alimentício,
falsificação de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais e
associação criminosa.
De acordo com as investigações, “há provas
robustas de que os funcionários empregavam substâncias proibidas pela
legislação brasileira na fabricação do composto Premix ou utilizavam
substâncias permitidas, mas em dosagem diversa do que a declarada às
autoridades e constante dos rótulos dos produtos”.
Segundo a Procuradoria, as rações e o Premix
eram distribuídos aos integrados da empresa, responsáveis pela criação e
engorda de aves e suínos, os quais, fechando o ciclo produtivo, são abatidos
pela BRF e processados para destinação aos mercados internos e externos.
“Para garantir que a prática delituosa não
fosse detectada, os denunciados ainda agiram conscientemente para burlar a
fiscalização federal, operando outras fraudes, como a remoção de estoques de
substâncias usadas na fabricação do Premix em datas próximas das quais se
realizariam auditorias in loco”, acentua o Ministério Público Federal.
A denúncia destaca que as substâncias acrescidas
às rações e ao Premix “eram, na maioria das vezes, potentes antibióticos,
cuja dosagem deve ser controlada e restrita, a fim de se evitar que os animais
abatidos cheguem ao consumidor final contendo doses destes medicamentos”.
O Ministério Público Federal apurou que “os
crimes não eram exceções ou meros desvios de conduta pontuais de alguns
funcionários, mas praticados de forma consciente e sistemática, constituindo-se
como verdadeira política da empresa e realizada em diversas escalas de
empregados”.
A denúncia indica que “os vários
funcionários envolvidos tinham pleno conhecimento das práticas ilícitas e
preocupavam-se, tão somente, com o acobertamento destas, não tendo sido
levantados durante as investigações quaisquer indícios concretos de que
atitudes seriam tomadas para corrigir tais distorções”.
“Ao burlar a fiscalização federal e
adulterar sistematicamente os índices de emprego de antibióticos em sua
produção, uma empresa do porte da BRF acaba por ameaçar, além da saúde, não
apenas a sua marca, mas anos de diplomacia e de promoção comercial que foram
necessários para que se pudesse criar, no exterior, a imagem do Brasil como um
produtor confiável de alimentos”, diz a Procuradoria.
Trecho da denúncia diz que “as condutas
criminosas de adulteração de exames e do emprego de fraudes para ludibriar o
sistema de fiscalização federal ultrapassam, no que pertence ao alcance de seus
resultados, as consequências que costumam ser vistas nos citados tipos penais
quando considerados de forma pontual”.
Rastreabilidade – A partir do que foi apurado,
verificou-se que “era prática corriqueira da empresa BRF a de adulterar a
rastreabilidade do composto Premix, utilizado como complemento às rações
fabricadas pela companhia, seja por inserir componentes não permitidos ou não
declarados, seja por alterar as porcentagens dos componentes indicados nas
etiquetas que identificavam o produto, normalmente no que diz respeito a
antibióticos”.
Assim, segundo o Ministério Público, “a
composição do Premix que era declarada em rótulos e nas receitas veterinárias
apresentadas ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento era
ideologicamente falsa, indicando substâncias de forma que não correspondiam à
realidade, uma vez que os funcionários da empresa certificavam-se de que as
informações fornecidas ao público e ao Serviço de Inspeção Federal trouxessem a
aparência de conformidade com a legislação”.
“Tais fraudes davam-se com o objetivo de
burlar a fiscalização federal, mas não se encerravam nisto, uma vez que, por
conta de tais atos, os rótulos constantes das embalagens do composto Premix
faziam incorrer em erro não somente o Serviço de Inspeção Federal, mas qualquer
um que viesse a utilizar o produto na engorda de sua criação, incluindo-se aí
os produtores ligados à própria BRF.”
Com a palavra, a defesa – “Em relação à denúncia oferecida nesta última
quinta-feira, 04, pelo Ministério Público referente à Operação Trapaça
envolvendo onze pessoas físicas, a BRF informa que tem total interesse no
esclarecimento de todos os fatos, uma vez que os princípios que guiam a
Companhia são baseados na transparência, respeito à legislação e tolerância
zero com qualquer tipo de conduta indevida.
Nenhum membro da administração, diretor ou
executivo em posição de gestão atual na BRF foi denunciado. Dentre os onze
denunciados, um colaborador da área técnica foi afastado na data de hoje (4),
seguindo a política adotada pela empresa de afastar preventivamente todos os
funcionários citados em investigações até o total esclarecimento dos fatos. Os
demais não fazem parte do quadro da empresa.
A BRF reitera que cumpre as normas e
regulamentos referentes à produção e comercialização de seus produtos, possuem
rigorosos processos de segurança alimentar, controles de qualidade e não
compactua com práticas ilícitas.
A Companhia continuará colaborando com as
autoridades e reitera seu compromisso em aprimorar constantemente seus
processos para garantir os mais elevados padrões de segurança, integridade e
qualidade.”



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