30 cidades ficam com até 72% dos recursos do pré-sal, mostra estudo

A
nova fronteira de produção do pré-sal em torno da Bacia de Santos
está criando um núcleo de municípios muito ricos, beneficiados
pelas regras de distribuição que o Supremo Tribunal Federal (STF)
mantém inalteradas há quase sete anos por força de uma ação
movida pelo Estado do Rio de Janeiro. Em jogo, um volume de recursos
que só em 2020 alcançará R$ 59 bilhões.
De acordo com estudo
elaborado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), obtido
pelo jornal O Estado de São Paulo, apenas 30 cidades do País
concentram hoje 72% de todos os recursos de royalties repassados pela
União. O que explica o surgimento desses “novos ricos” é
o aumento significativo da produção no Sul do Rio e no Norte de São
Paulo. O campo de Lula, nessa região, já é responsável por um
terço da produção nacional de petróleo.
Um dos símbolos
desses novos “emirados” é Maricá. Com 157 mil habitantes,
o município fluminense receberá, em 2020, a cifra de R$ 1,9 bilhão
em royalties e participação especial de petróleo, segundo
projeções da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis
(mais informações na pág. B3). O royalty e a participação
especial são uma compensação paga pela extração do
petróleo.
Além de Maricá, as cidades litorâneas de Ilhabela
(SP), Saquarema (RJ) e Niterói (RJ) também passaram a integrar o
grupo de endinheirados, juntando-se a Macaé e a Campos dos
Goytacazes, que, na década passada eram os principais
beneficiários.
O estudo da CNM mostra, porém, que o sistema de
distribuição é desequilibrado mesmo entre os Estados produtores,
beneficiando poucas cidades em detrimento da maioria. São Gonçalo,
no Rio, por exemplo, com um milhão de habitantes, receberá apenas
R$ 30 milhões em 2020.
Supremo
Liminar
concedida pela ministra Cármen Lucia, do STF, suspendeu dispositivos
da Lei 12.734/2012 que estabeleceram novas regras de distribuição
dos royalties do petróleo, beneficiando todos os municípios do
País, e não apenas os “confrontantes” – como são
chamadas as cidades litorâneas mais próximas dos campos de
petróleo, que sofrem as consequências da produção petrolífera.
Em 2013, a ministra liberou a ação para julgamento, mas o processo
ainda se arrasta.
Durante a “Marcha dos Prefeitos”, em
abril, o julgamento da liminar chegou a ser marcado pelo presidente
do STF, Dias Toffoli, mas acabou sendo adiado para o ano que vem, a
pedido dos governadores dos Estados produtores. Segundo apurou o
Estado, uma audiência pública pode ser convocada, atendendo ao
pedido do governo do Rio de Janeiro, autor do pedido de liminar
O
presidente da CNM, Glademir Aroldi, critica o fato de uma decisão
“monocrática” do STF segurar os repasses, apesar de a
mudança na distribuição dos royalties entre Estados e municípios
ter sido aprovada por maioria do Congresso e depois de vários anos
de mobilização. “Os prefeitos precisam de uma decisão
definitiva sobre o assunto. Falta de tempo não é possível. São
mais de seis anos sem analisar”, afirma ele.
Embora defenda
uma maior parcela para os Estados e municípios confrontantes, Aroldi
diz que essa abundância de recursos para poucos municípios é
ineficiente em termos econômico-fiscais. Segundo ele, nos últimos
seis anos, foram distribuídos R$ 22 bilhões de royalties do
petróleo.
O pesquisador do Ipea Sergio Gobetti participou de um
projeto do Banco Mundial para estudar como os países organizados de
forma federativa lidavam com a renda do petróleo. O Brasil, segundo
ele, era um dos que mais descentralizava os recursos. Poucos países
distribuem renda sobre produção em mar.
“Nenhum país do
mundo adota um modelo de distribuição de royalties para municípios
baseado em critérios de confrontação, como faz o Brasil. Essa
jabuticaba fiscal, além de produzir uma concentração muito injusta
dos recursos em poucas mãos, gera preguiça tributária e baixa
qualidade do gasto”, diz Gobetti.
Segundo o pesquisador, há
uma razão macroeconômica importante para não concentrar muito os
recursos em poucos Estados e municípios: o preço do petróleo é
muito volátil, e essa volatilidade é muito perigosa para a receita
de um governo.
Para a CNM, o forte aumento de receitas
petrolíferas projetado para os próximos anos oferece condições
para que as novas regras de rateio sejam aplicadas sem impactos
negativos sobre as finanças dos Estados e municípios mais
beneficiados pelo modelo atualmente em vigor.
Entidade
é contra repassar royalties a todos municípios
Na
contramão da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), o
presidente da Associação Brasileira dos Municípios com Terminais
Marítimos e Fluviais para Embarque e Desembarque de Petróleo e Gás
Natural (Abramt), Pierre Emerin, diz acreditar que o Supremo Tribunal
Federal (STF) vai declarar a inconstitucionalidade da lei que mudou a
distribuição das receitas provenientes da produção de petróleo.
A
lei – que estendeu a todos os municípios do País as receitas com
exploração de petróleo – está suspensa por liminar da ministra
Cármem Lúcia.
Prefeito de Imbé (RS), Emerin diz que as
cidades que detêm as instalações e que efetivamente participam de
todo o processo de carregamento e descarregamento da produção de
petróleo mereceriam receber os recursos do petróleo, pois enfrentam
os riscos ambientais e se moldaram para atender às necessidades de
exploração.
Imbé tem 30 mil habitantes e é um dos municípios
que recebem recursos como compensação pela exploração do
petróleo. São cerca de R$ 18 milhões por ano – 15% da receita
administrada pela Prefeitura local.
Para o presidente da Abramt,
a CNM erra ao defender a distribuição dos recursos para todos os
municípios. “Não é uma tábua de salvação, como ela espera.
Não vai resolver em nada a vida financeira dos municípios”,
avalia.
Ele afirma que uma distribuição igualitária dos
royalties de petróleo demandaria a revisão de todos os tipos de
taxas, inclusive de barragens e usina elétricas. “É casuística
e oportunista essa revisão tão somente de petróleo”, critica
o presidente da Abramt. Uma mudança nas regras teria de ser feita
dentro de uma revisão do pacto federativo, ressalta.
Na ação
no STF, o governo do Rio de Janeiro sustenta que a nova norma fere o
pacto federativo originário da Constituição de 1988 Para o Estado,
a criação de um regime jurídico somente poderia afetar concessões
futuras, mas as inovações trazidas pela lei mexeram com situações
já constituídas há muito tempo nos Estados produtores – como
expectativa e comprometimento das receitas provenientes da
distribuição dos royalties.
Com
expansão do pré-sal, Maricá vira ‘novo rico’
A
60 quilômetros de distância da cidade do Rio de Janeiro, o
balneário de Maricá colhe os frutos da expansão do pré-sal e
ostenta agora o título de “novo rico do petróleo”. Só
neste ano, R$ 646 milhões de royalties e participação especial,
cobrados de grandes campos produtores, vão engordar a receita da
Prefeitura. O dado é da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural
e Biocombustível (ANP). A previsão é que a arrecadação cresça
ainda mais à medida que megacampos, como de Lula e Búzios,
avançarem nos próximos anos.
Se todo esse dinheiro fosse
distribuído entre os 157 mil habitantes da cidade, cada um deles
teria recebido R$ 4,1 mil. Como prevê a legislação, a receita está
sendo gasta em projetos de Saúde e Educação.
Maricá é a que
mais investe no Estado, de acordo com o Índice Firjan de Gestão
Fiscal (IFGF). Em contrapartida, está entre as que têm menor
autonomia financeira. Na prática, significa que não é capaz de
sustentar sua estrutura com receita própria, apenas com
transferências, como as compensações pagas pelas empresas
petroleiras, principalmente pela Petrobrás.
“Não fossem
os royalties, Maricá não se manteria. É necessário ter um
planejamento de longo prazo para não ficar numa situação bastante
delicada. Não é só a produção de petróleo que determina a
arrecadação, mas também o câmbio e a cotação do petróleo, que
podem cair a qualquer momento e deixar os municípios arrecadadores
na mesma situação que ficou o Estado do Rio”, afirma Jonathas
Goulart, gerente de Estudos Econômicos da Firjan
Sobre as
“novas ricas do petróleo” recai sempre o fantasma de
repetir a história dos municípios fronteiriços à Bacia de Campos,
no norte fluminense, como Macaé, Campos dos Goytacazes e Rio das
Ostras. Essas cidades ficaram famosas pela ostentação de fachadas,
com calçadas litorâneas de mármore e construção de sambódromo
onde nem há carnaval. Pouco investiram em necessidades básicas da
população, como saneamento. Quando veio a crise do petróleo, em
2014, e os preços despencaram, elas viram seus orçamentos
minguarem.
“Os recursos são voláteis, pois o preço do
petróleo flutua, e finitos, porque a produção um dia acaba.
Precisam ser bem aproveitados. Não há maldição do petróleo. O
que há é má gestão, que deve ser evitada”, diz Décio
Oddone, diretor-geral da ANP.
O ideal, segundo Carlos Maurício
Ribeiro, especialista de Petróleo e Gás e sócio do Vieira Rezende
Advogados, seria que a receita fosse revertida em infraestrutura para
atrair investidores e desenvolver a economia local, não apenas em
petróleo.
“Maricá tem uma posição privilegiada em
relação ao pré-sal e a possibilidade de crescer dependendo da
qualidade da gestão. Mas seu sucesso está atrelado também à
legislação, que carimba o gasto das compensações financeiras à
Educação e Saúde”, diz Ribeiro. A Lei 12.858 define que 75%
da receita de royalties e participação especial devem ir para
Educação e o restante, para Saúde.
“Seria bom aplicar em
estradas, iluminação, enfim, na estrutura da cidade para atrair
outras atividades e se interligar a municípios vizinhos com os quais
mantém relação de comércio”, acrescenta. Procurada, a
prefeitura de Maricá não se pronunciou.



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